Resenha: MAUS – A História de um Sobrevivente – Art Spiegelman

/Editora Companhia das Letras/Resenhas/

Editora: Companhia das Letras
Autor: Art Spiegelman
ASIN: 9788535906288
Edição: 1
Número de páginas: 296
Acabamento: Brochura
Classificação EDS: 100 de 100 pontos
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Maus (‘rato’, em alemão) é a história de Vladek Spiegelman, judeu polonês que sobreviveu ao campo de concentração de Auschwitz, narrada por ele próprio ao filho Art. O livro é considerado um clássico contemporâneo das histórias em quadrinhos. Foi publicado em duas partes, a primeira em 1986 e a segunda em 1991. No ano seguinte, o livro ganhou o prestigioso Prêmio Pulitzer de literatura.
A obra é um sucesso estrondoso de público e de crítica. Desde que foi lançada, tem sido objeto de estudos e análises de especialistas de diversas áreas – história, literatura, artes e psicologia. Em nova tradução, o livro é agora relançado com as duas partes reunidas num só volume.

Minhas impressões

Sim é um livro sobre o Holocausto, MAUS não é mais do mesmo em relação ao tema, é uma obra importante porque aborda sinceramente, pela via das questões familiares dos sobreviventes, as heranças de um período tão tenebroso. É crucial que ainda mais seja escrito, filmado, cantado e divulgado não importando a mídia ou a linguagem para que não esqueçamos e para que nunca mais se repita algo do tipo na História da Humanidade.

A obra é autobiográfica e vai permear a história do próprio autor, Art Spiegelman, enquanto filho de um pai, Vladek Spiegelman, judeu polonês que sobreviveu aos mais diferentes períodos e sofrimentos impostos pela Segunda Guerra Mundial.

História em Quadrinhos de primeira qualidade com traços característicos do artista, desenhado e escrito em preto e branco, a partir do relato do pai é uma opção interessante pela marcação das personagens: os nazistas são desenhados como gatos, os poloneses aparecem retratados como porcos, os norte americanos como cachorros e os judeus como ratos numa representação criativa dos papeis de cada um naquele momento e em uma inspiração na cadeia alimentar.

A história da Guerra é narrada de pai para filho que registra tudo em um gravador nas sessões de entrevista que, como não poderia deixa de ser, esbarram em feridas, cicatrizes, situações que beiram a comicidade tamanha tragédia embutida. Art entra em crise em vários momentos pensando na legitimidade do que está fazendo, na exposição de um pai que sobreviveu à sua maneira e que ficou com sequelas muito sérias que dificultaram sua vida no momento pós-guerra, marcas que magoam e chegam a envergonhar.

“(Suspiro) É muito esquisito tentar reconstruir uma realidade pior do que os meus sonhos mais pavorosos. E ainda por cima em Quadrinhos! Acho que estou dando um passo maior do que as pernas, talvez seja melhor deixar pra lá.

Da triste odisséia vivida é muito bonito o modo como o pai procurou desesperadamente garantir a sobrevivência da mulher, existe ali uma história de amor singular e que merece destaque. Anja era “cuidada” de alguma maneira e estimulada a ter alguma esperança ou a simplesmente continuar vivendo.

Meu pai a encontrou ao chegar do trabalho…os pulsos cortados e um vidro de comprimidos vazios.

Não foram poucos os momentos em que interrompi a leitura para desfazer o nó na garganta diante do registro do pai pelas atrocidades do período e das estratégias para continuar vivendo e do filho em compreender e exercitar a compaixão para conviver com alguém com tanto resquício de sofrimento.

O livro foi publicado em duas fases, a primeira em 1986 e a segunda em 1991. A edição lida foi a lançada pela Cia das Letras – Quadrinhos na CIA – já em volume único e com o selo de obra vencedora do prêmio Pulitzer.

Tanta coisa eu nunca vou conseguir entender nem visualizar. É que a realidade é complexa demais para ser contada em quadrinhos.

MAUS é um livro forte, ácido, triste, emocionante e que merece uma leitura generosa de suas páginas. É comovente sem ser piegas, trata de um tema pesado que, assim como a escravidão em terras brasileiras, gostaríamos de esquecer mas que temos a obrigação de revisitar, compartilhar e problematizar com as novas gerações.

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Resenha: Padaria – Gislene Vieira de Lima

/Editora Modo/Resenhas/

Editora: Modo
Autor: Gislene Vieira de Lima
ASIN: 9788565588188
Edição: 1
Número de páginas: 220
Acabamento: Brochura
Classificação EDS: 100 de 100 pontos
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Quando Beto parou em frente àquela padaria, tudo o que ele queria – um emprego que não conflitasse com seu horário de estudo, e ao mesmo tempo, o ajudasse a se manter, já que estava vivendo sozinho em uma pequena quitinete desde que se mudara para a cidade por conta da universidade. O que ele não sabia é que aquela padaria não era um lugar comum. Coisas muito estranhas passaram a acontecer desde que colocou os pés lá dentro, como se aquele espaço estivesse em uma dimensão paralela. O pior é que a influência do lugar parecia persegui-lo também em sua vida pessoal. Fantasmas e criaturas estranhas desfilavam diante de seus olhos como se sua existência sempre estivesse estado ali, a um piscar de olhos de uma pessoa mais atenta. Os que trabalhavam dentro daquele comércio, também eram criaturas curiosas, cada qual com seu problema. Iniciando pelo misterioso Seu Mauro, o proprietário da padaria, sempre rústico no lidar com os demais, porém, ao mesmo tempo, sendo capaz de proteger e cuidar de todos os que estavam sobre o seu teto. Passando pela bela e espevitada Catarina em seu amor infrutífero por um dos gêmeos e com uma sabedoria e profundidade de sentimentos que só mais tarde Beto descobriu, pertencia aos mais velhos. Ao perceber que cada um dos que ali estavam ali tinham um motivo, o jovem protagonista começou a entender que dentro de sua história havia coisas ainda pendentes, como a perda de um jovem amor que o assombrava e a presença de um perigo real nos arredores de sua casa. A padaria estava lhe dando a experiência necessária para poder enfrentar um grave perigo que ameaçava sua vida. Restava saber se Beto, com sua natureza tão simples e direta, seria capaz de aprender e sobreviver a este novo encontro com a sombra da morte.

Minhas impressões

Minha leitura completa de Padaria foi, por tolice minha adiada várias vezes, justifico dizendo que não dimensionava o valor da excelente obra abandonada na crescente pilha de livros para ler. Acrescento ainda o ponto de que, na ocasião, era relativamente próxima da autora, sim eu tive a honra de trabalhar com Gislene Vieira de Lima e temia ter que mentir se não fosse um livro tão bom. Ledo engano.

Padaria é um livro muito bacana que emociona, cativa e conquista o leitor de maneira sensível e o coloca em contato com um universo paralelo surpreendente, divertido e com direito a suspense e medinhos básicos envolvendo o tão esquecido e negligenciado folclore brasileiro.

Somos apresentados ao jovem Beto que veio do interior para estudar Direito, moço dedicado e com os tostões contados passa os dias naquele bom e velho dilema do perrengue universitário de almoçar macarrão instantâneo e pensar se não seria interessante economizar o dinheiro do ônibus para garantir a cópia dos textos a serem estudados. A identificação é imediata se você foi um aluno de graduação ou numa projeção de dias que virão, caso ainda esteja em fase pré-universitária.

Diante da necessidade de ter um orçamento mínimo, vem a busca por uma vaga no mercado de trabalho, reconhece porém não estar maduro o suficiente para o estágio na área de estudo e sabe da dificuldade que terá pelo fato de estudar no período matutino, daí o entusiasmo frente ao anúncio de uma vaga numa Padaria localizada estrategicamente entre sua casa e a faculdade.

O contato inicial na indicação da vaga e pseudo entrevista sinaliza algumas dúvidas e situações que afastariam qualquer candidato mais atento, mas Beto está tão precisado que ignora mostras de que existe algo, no mínimo estranho, na Padaria.

Não se preocupe demais. O tempo é como um enorme quebra cabeças que você nunca irá ver montado. Tentar visualizar toda a cena sem ter todas as peças é querer enlouquecer.

Vamos gradativamente conhecendo personagens que povoam a Padaria: Seu Mauro é um personagem ótimo, forte, com uma história bonita e que vai direcionar Beto a um amadurecimento e “entendimento” do que acontece, os irmãos são personagens curiosos que alternam e denotam um olhar especial e, além de outros tantos, a bela Catarina vai ser determinante por sua ambiguidade e personificação do desejo.

É muito curioso, na medida em que a leitura avança, ir identificado as lendas, causos e também conhecendo personagens de nosso rico e diversificado folclore e sua herança indígena, africana e europeia. A alternância de personagens místicos, de histórias que reavivam o imaginário popular brasileiro e o acesso às memórias dos causos assombrosos ouvidos aqui e ali durante nossa infância, tornam a leitura mais instigante e curiosa, sem falar na novidade daqueles que desconhecemos.

– Como assim?
– Ela abdicou de seu desejo. Ela decidiu dar outro rumo para o seu destino.
– Apenas isso?
Ele me olhou com curiosidade.
-Acha pouco?
-Ela mudou tudo só com a vontade dela?
– Os destinos estão sempre mudando. Cada ação cria um novo caminho, cada desejo um novo desenrolar de sua própria história. Ele teve o privilégio de ver o desfecho de um caminho. Apenas um de muitos outros que se abrirão para ela a cada decisão tomada.
– Então ela nunca esteve aqui?

É inevitável a reflexão sobre a riqueza da cultura nacional que é referência para obra e o quanto deixamos tal patrimônio esquecido diante do bombardeio “do que vem de fora” e não estamos questionando a qualidade do que importamos, trata-se de olhar com atenção os nossos mitos e ritos.

A sequência de situações que vão desenhando a história torna o leitor companheiro de jornada e cúmplice de Beto diante das aventuras vividas, sua graduação fica em segundo plano e tudo parece muito real talvez pela ingenuidade do rapaz vindo do interior, o que justificaria algumas de suas atitudes ou a real necessidade do emprego. O que acontece na Padaria em, por exemplo, um dia de Finados é de arrepiar.

Meus olhos finalmente conseguiram se comunicar com o meu cérebro e me explicar o motivo de minha sensação estranha. Estávamos os dois, eu e ela, bem embaixo de um poste de luz. Levei um tempo para tomar consciência do que estava me causando desconforto. Mas finalmente fui capaz de pregar meus olhos no chão e ver tudo com clareza. Não estava lá. A sombra dela não estava lá.

Além dos capítulos intitulados com todas as gostosuras de um balcão das padarias comuns, destaco a capa que apresenta um beija-flor e o resgate da bela lenda que conta a história de que o pássaro transita no mundo dos vivos e dos mortos.

Depois de ler, ir à Padaria nunca mais será igual! Vale! Permita-se!

Resenha: Cartas Extraordinárias – Shaun Usher

/Editora Companhia das Letras/Resenhas/

Editora: Companhia das Letras
Autor: Shaun Usher
ASIN: 9788535925111
Edição: 1
Número de páginas: 368
Acabamento: Brochura
Classificação EDS: 100 de 100 pontos
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Uma maravilhosa seleção das cartas mais divertidas, inspiradoras e inesperadas, escritas por personagens notáveis. Do comovente bilhete suicida de Virginia Woolf à receita que a rainha Elizabeth II enviou ao presidente americano Eisenhower; do pedido especial que Fidel Castro, aos catorze anos, faz a Franklin D. Roosevelt à carta em que Gandhi suplica a Hitler que tenha calma; e da bela carta em que Iggy Pop dá conselhos a uma fã atormentada ao genial pedido de emprego de Leonardo da Vinci – Cartas extraordinárias é uma celebração do poder da correspondência escrita, que captura o humor, a seriedade e o brilhantismo que fazem parte da vida de todos nós. Esta coletânea de mais de 125 cartas oferece um olhar inédito sobre os eventos e as pessoas notáveis da nossa história. O livro reproduz a maior parte dos fac-símiles das missivas, com sua transcrição e uma breve contextualização, além de ser ricamente ilustrado com fotografias e documentos. A engenhosa organização de Shaun Usher cria uma experiência de leitura que proporciona muitas descobertas, e cada nova página traz uma bela surpresa para o leitor. Não apenas um deleite literário, mas também um livro-presente inesquecível. Inclui cartas de: Zelda Fitzgerald, Dostoiévski, Amelia Earhart, Charles Darwin, Albert Einstein, Elvis Presley, Dorothy Parker, John F. Kennedy, Charles Dickens, Katharine Hepburn, Mick Jagger, Steve Martin, Emily Dickinson e muito mais.

Minhas impressões

Ler Cartas Extraordinárias organizado por Shaun Usher é algo bastante singular, primeiro pelo fato de que ler correspondência alheia sempre tem um toque meio voyeur, afinal aquelas palavras não foram escritas para que você lesse e depois porque o contexto histórico em que foram escritas tomam outra conotação em nossa privilegiada posição de leitores do futuro.

Fiz a leitura de maneira aleatória, livre e sem seguir a sequência do livro procurando primeiramente as de emissários e destinatários mais conhecidos historicamente. Foi um passeio marcante e impressionante, a descoberta de uma carta leva a necessidade da leitura de “mais uma” e quando menos esperei, o livro acabou e deixou o desejo de “quero mais” que faz justiça a nota do The Sunday Times estampada na capa “O Equivalente Literário a uma Caixa de Chocolates”.

Várias missivas me emocionaram profundamente e não consegui ficar impassível diante de histórias de guerra, declarações dilacerantes de amores ímpares, sentimentos de fraternidade e de eminência histórica imbuídas numa vontade de alertar emissores e destinatários sobre o desdobramento daquela carta, “É uma cilada, Bino”.

É evidente que hoje a maior defesa da incrível quantidade de mensagens escritas e trocadas pelas pessoas através dos smartphones e emails é a rapidez com que tudo acontece, e isso é ótimo, sinal dos tempos e não tem volta, mas fico me questionando sobre a permanência das cartas escritas ou até digitadas, enviadas pelos Correios e toda aquela aura de ansiedade que as envolvia.

O livro apresenta esse saudosismo de forma muito bonita, boa parte das cartas tem a reprodução da original e a força do lido dobra porque observamos a caligrafia, o papel e a força de cada uma delas.

A escolha das 125 cartas apresentadas é fruto de pesquisa que durou quatro anos e tem muito de uma determinada cultura e visão de mundo, algumas são um tanto anônimas e com pouco significado histórico imediato, mas uma pesquisa simples pode levar ao esclarecimento e talvez nem seja algo necessário para compreensão do todo, pois além do fac-símile, temos a transcrição da carta e ainda um pequeno texto contextualizando a missiva num trabalho super caprichado e elucidativo.

Se eu tentasse lhe dar algum conselho específico, seria algo como um cego guiando outro…
E essa é realmente a questão: boiar ao sabor da corrente ou nadar para alcançar um objetivo? Essa é uma escolha que, consciente ou inconsciente, todos nós temos de fazer alguma vez na vida…
Cada pessoa é a soma total das próprias reações às várias experiências. Na medida em que as suas experiências se diversificam e se multiplicam, você se torna outro homem, e, portanto, sua perspectiva muda. É sempre assim. Toda reação é um processo de aprendizagem; toda experiência significativa altera sua perspectiva.

Da carta 021, de Hunter S. Thompson para Hume Logan respondendo ao pedido de conselho solicitado pelo amigo. Foi intitulada como “É preciso ser alguém: é preciso ter importância.

Apenas alguns poucos exemplos das minhas preferidas:
“Um grande erro de Einstein” – De Albert Einstein para o presidente dos Estados Unidos Franklin D. Roosevelt – que tece sobre realmente ser possível a utilização de urânio como nova e importante fonte de energia.

“A morte mais bela” – De Laura Huxley para Julian e Juliette Huxley – relatando a inquietação sobre sua opção de ministrar LSD Adous Huxley na tentativa de ajudar o autor, seu marido, diagnosticado com câncer na laringe e em seus últimos dias de vida.

“Não chores por mim” – De Fiódor Dostoiévski para seu irmão Mikhail Dostoiévski logo após ser salvo de um pelotão de fuzilamento e enviado para a prisão.

“Os filmes da Pixar nunca terminam, só são lançados” – de Pete Docter para Adam – o rapaz escreveu pedindo uma foto autografada e recebeu, meses depois, uma carta ilustrada e com um toque de humor e atenção que defino como absolutamente “fofo”.

“Trabalhe” – de Sol Lewitt para Eva Hesse – bela e inspiradora carta sobre a necessidade de continuar trabalhando e investindo, apesar do bloqueio de criatividade e questionamento de Hesse sobre o próprio talento.

Indico a leitura e, além disso, o livro é definitivamente um daqueles presentes para quem está em dúvida sobre o tipo de obra que o presenteado irá gostar, a edição da Companhia das Letras está caprichada, seu tamanho é diferente do usual, o volume é pesado e todo bonito. É irresistível!

Resenha: Memórias Inventadas – As Infâncias – Manoel de Barros

/Editora Planeta do Brasil/Resenhas/

Editora: Planeta do Brasil
Autor: Manoel de Barros
ASIN: 9788576654964
Edição: 1
Número de páginas: 192
Acabamento: Brochura
Classificação EDS: 100 de 100 pontos
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O poeta Manoel de Barros um dia pensou em publicar três livros. Um que tratasse da infância, outro da mocidade e mais um sobre a velhice. Depois que escreveu os primeiros poemas e os publicou, no entanto, percebeu que não seria capas de tratar dos outros dois assuntos. E ele explicou a razão com palavras muito simples e poéticas, como é seu costume. Disse: “Eu só tive infância”. Memórias Inventadas – As infâncias de Manoel de Barros reúne os versos das três infâncias do autor. O estilo único do poeta se completa com as iluminuras de Martha Barros, sua filha e pintora. O resultado é um livro que se lê e relê sempre com prazer e encantamento.

Minhas impressões

“Memórias Inventadas – As Infâncias de Manoel de Barros” é um livro absolutamente poético e sensível. Uma obra que, se deixarmos, nos transportará direto para os rincões de nossa mais tenra infância, aquela inocência em que o tudo e o nada fazem muito sentido, um tempo em que o mundo está para ser descoberto e a natureza, mesmo para os que moram na cidade, muito mais próxima de nós numa espécie de simbiose.

As Infâncias, reais ou inventadas, do autor foram dividas em três partes: “A Primeira Infância”, “A Segunda Infância” e a “Terceira Infância”, na ideia do escritor de rompimento com a possibilidade de escrever sobre a meninice, a mocidade e a velhice e também numa bela apresentação através de um passeio pelas diversas fases do primeiro período da vida.

Eu sinto mesmo hoje que a estrada é carente de pessoas e de bichos. Emas passavam sempre por ela esvoaçantes. Bando de caititus a atravessavam para ver o rio do outro lado. Eu estou imaginando que a estrada pensa que eu também sou como ela: uma coisa bem esquecida. Pode ser. Nem cachorro passa mais por nós. Mas eu ensino para ela como se deve comportar na solidão. Eu falo: deixe, deixe meu amor, tudo vai acabar. Numa boa: a gente vai desaparecendo igual quando Carlitos vai desaparecendo no fim de uma estrada…Deixe, deixe, meu amor.

Os capítulos possuem títulos e histórias curiosas, espantosas e engaçadas. São intitulados como, entre outros, “O lavador de Pedra”, “Latas”, “Bocó”, “Pelada de Barranco” e “O Menino que ganhou um rio” com a descrição dos mais diversos casos e observações sobre espanto e admiração diante das coisas mais simples da vida.

Da obra de Manoel de Barros, gosto em especial da poesia, da doçura e do encantamento a partir da descoberta de um mundo que funciona numa outra lógica, numa perspectiva do sensível, do valor não monetário e do surpreendente da vida e da mãe natureza.

Porque eu havia lido em algum lugar que as palavras eram conchas de clamores antigos. Eu queria ir atrás dos clamores antigos que estariam guardados dentro das palavras.

O livro, ganhador do prêmio APCA de Literatura em 2008, demonstra nuances engraçadas da etapa mais importante da vida humana e carrega a força do uso da palavra pelo autor, aquele significado de um termo que nem sempre é o usual e que precisamos desconstruir para conseguir fazer a leitura. Em “O apanhador de desperdícios” vai dizer “Tenho em mim esse atraso de nascença” e “Só uso a palavra para compor meus silêncios”.

A leitura avança e encontramos diversas situações que remontam a nossa meninice, são contadas as brincadeiras com os amigos, descoberta de algumas características vegetais e animais, vivências escolares e o cotidiano familiar ficando impossível não acessarmos nossas memórias ou lembranças de nossos avós.

Minha avó, ela era transgressora. No propósito ela me disse que até as mariposas gostavam de roçar nas obras verdes. Entendi que as obras verdes seriam aquelas feitas no dia. Daí que também a vó me ensinou a não desprezar as coisas desprezíveis…e nem os seres desprezados.

As ilustrações chamadas de “iluminuras”, feitas pela filha do autor são um capítulo muito importante na composição da obra. Martha Barros exprime suas sutilezas, cores e harmonias resultando em um tom ainda mais belo e lúdico ao livro.

Há um ano, depois de uma bela caminhada, Manoel de Barros foi para outro plano e o que ficou foi a marca de sua existência contada em delicada obra que de tão poética e singular vale a pena ser visitada.

Resenha: Do amor e outros demônios – Gabriel Garcia Márquez

/Editora Record/Resenhas/

Editora: Record
Autor: Gabriel García Marquez
ASIN: 9788501042286
Edição: 1
Número de páginas: 192
Acabamento: Brochura
Classificação EDS: 100 de 100 pontos
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Em 1949, o então jovem repórter Gabriel García Márquez acompanha a remoção das criptas do convento histórico de Santa Clara, e o túmulo de uma menina o faz lembrar as lendas contadas por sua avó. Segundo ela, no Caribe, havia uma marquesinha que tinha uma “cabeleira que se arrastava como a cauda de um vestido de noiva”. Venerada por seus milagres, ela foi mordida por um cachorro e morreu de raiva. Seria ela ali enterrada? García Márquez conta a história da filha única de um marquês, criada no convívio de escravos e orixás, e um padre incumbido de exorcizar os demônios que se acredita terem possuído a pequena, cujos cabelos só seriam cortados em seu casamento.

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Minhas Impressões

Ler Gabriel García Márquez é sempre um acontecimento e algo feito com reverência, admiração e imersão numa escrita realizada com força que provoca em mim um fascínio inexplicável por aquele mundo fantástico que ele criou.

Há muitos anos, depois de uma série de tentativas frustradas, fui completamente arrebatada pelos Buendia de Cem Anos de Solidão e hoje o cenário narrativo de toda e qualquer história do autor é, na verdade, a boa e velha Macondo. Para os demais leitores provavelmente não deve ser assim, cada obra deve ter seu território e tudo o mais, mas pra mim elas acontecem quase que simultaneamente “por ali”.

Em meu imaginário tudo tem o mesmo cenário, as aventuras e desventuras descritas nos livros do autor ocorrem na mesmíssima região. Consigo pensar as grandes fazendas, as casas, os vilarejos, as florestas, as estradas e os mosteiros exatamente da mesma forma com a alteração apenas dos personagens e enredos, como se a cem quilômetros do mar que trouxe “O Afogado mais bonito do mundo” estivesse o lugar em que “O Amor nos tempos ao cólera” se passou.

Tudo isso para chegarmos ao belo e curioso “Do Amor e Outros Demônios”, história que é narrada de maneira belíssima, com identidade marcante e que tem um poder surpreendente. O título é aquela provocação interessante, que amplia a reflexão sobre a quebra do significado do Amor como divino e coloca-o de maneira dúbia como obra do “coisa ruim”.

No início da carreira como repórter, Garcia Marquez foi encaminhado para acompanhar a remoção das criptas de um antigo convento da cidade de Santa Clara e quando o túmulo de uma jovem é aberto “a cabeleira que se arrastava como a cauda de um vestido de noiva”, o fez relembrar de uma das histórias de sua avó sobre uma marquesa que fazia milagres pelo Caribe e é sobre ela, Sierva Maria de Todos Los Angeles, que o livro vai falar.

– Não é que a menina seja negação para tudo, o que há é que ela não é deste mundo.
Bernarda quisera aplacar os seus rancores, mas logo ficou evidente que a culpa não era nem de uma ou de outra, mas da natureza de ambas. Vivia em pânico desde que acreditou descobrir na filha certa condição fantasmal. Tremia só de pensar no instante em que olhava para trás e dava com os olhos inescrutáveis da criança lânguida com seus tules vaporosos e a cabeleira silvestre que já lhe batia pelos joelhos.

O parte inicial do livro apresenta a menina Sierva Maria e toda a solidão e mistério que acompanham sua existência, ficamos em dúvida sobre os motivos pelos quais não interage com as pessoas e seu fascínio, reconhecimento e conforto na proximidade com os rituais africanos.

Tomamos conhecimento dos adultos da história e suas respectivas solidões, falta de amor ou tentativas tardias de mudança; o pai Marquês de Casalduero mostra cuidado e atenção para com a filha um pouco tarde e apesar das ressalvas, cede ao médico que diante de episódios que envolvem vômitos, objetos que se movem e outras situações duvidosas; a mãe, Bernarda Cabrera, perdeu-se em si mesma e teme verdadeiramente o mistério da filha num distanciamento escabroso de si, da família ou das tentativas de ser o que se é.

O comportamento da menina vai suscitando questões e observações, inclusive médicas, até que se chega a conclusão de que está possuída e que é preciso intervenção imediata. Uma vez “descoberta” a possessão demoníaca, entra em cena o padre Cayetano Delaura religioso inteligente, letrado e bastante culto.

O convento onde Sierva Maria é colocada tem descrição horripilante e as freiras reforçam todas as intolerâncias que oprimiram e ainda oprimem os que sentem, pensam e agem de maneira diferente.

Delaura, depois de tentar salvar a menina do demônio, acaba sucumbindo ao poder do amor, numa história com dose de mistério, encantamento e ardor. Trata-se de um amor perturbado, inquieto e bastante diferente do que esperamos e que acaba inquietando o leitor acostumado a obras mais lineares.

E sem lhe dar tempo ao pânico, libertou-se da matéria turva que o impedia de viver. Confessou que não passava um instante sem pensar nela, que tudo o que bebia e comia tinha gosto dela, que a vida era ela a toda hora e em toda parte, como só Deus tinha o direito e o poder de ser, e que o gozo supremo de seu coração seria morrer com ela. Continuou falando sem a fitar, com a mesma fluidez e o mesmo calor com que recitava, até que teve a impressão de que Sierva Maria tinha dormido. Mas ela estava atenta, fixos nele os seus olhos de corça assustada. Apenas se atreveu a perguntar:
– E agora?
– Agora nada – disse ele. – Basta que saibas.

Temos ainda outras tantas nuances em que podemos pensar sobre a religiosidade, as hierarquias, a decadência social e de si, os papéis que se assume, o fanatismo e outras tantas questões que não apontamos aqui para não entregar ainda mais a história.

Ainda não li toda a obra do grande Gabo e a presente não é a melhor das que já conheço, mas o livro vale muito a aventura!

Resenha: As ilhas da corrente – Ernest Hemingway

/Bertrand Brasil/Resenhas/

Editora: Bertrand Brasil
Autor: Ernest Hemingway
ASIN: 9788528618716
Edição: 1
Número de páginas: 616
Acabamento: Brochura
Classificação EDS: 100 de 100 pontos

As ilhas da corrente’ narra as aventuras e as tragédias presentes em momentos cruciais da vida do pintor Thomas Hudson – um evidente alterego hemingwayniano. O livro é dividido em três partes. A primeira parte, ‘Bimini’, é ambientada em uma paradisíaca ilha do Caribe onde Hudson – divorciado e beberrão – leva uma vida idílica. Em ‘Cuba’, o segundo segmento, o personagem é um homem atormentado que perde o filho em um acidente. Ao mesmo tempo, reencontra a primeira esposa e revive o final infeliz da grande história de amor de sua vida. A última parte, por sua vez, é um drama de guerra que contém elementos que lembram outras obras de Hemingway. Batizada de ‘No mar’, mostra Hudson como um caçador de submarinos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. As ilhas da corrente é um retrato brilhante da vida de um homem complexo e intrigante. Nestas páginas, Hemingway alcança o seu zênite de maturidade literária.

Minhas Impressões

A leitura de “As Ilhas da Corrente”, obra póstuma, foi um exercício interessante de redescobrimento e retomada da paixão pelo autor e reforço do fascínio pelo mar. É simplesmente impossível, eu garanto, acompanhar o desenvolvimento da narrativa sem sentir a brisa, o céu, o sol e sem imaginar que se está nas ilhas caribenhas diante do esplendor da natureza descrita pelo autor.

Dividida em três partes, chega a deixar o leitor meio confuso pela aparente falta de desfecho e sequência lógica entre elas, mas veremos que “Bimini”, “Cuba” e “No Mar”, se completam e explicam o personagem principal. O leitor vai construindo e entendendo Thomas Hudson no ir e vir de personagens, memórias e reflexões que possuem ainda uma carga de identidade biográfica com Hemingway.

Há tantos quadros ótimos pra pintar e se você der o máximo de si, se abstendo de tudo e só se dedicando à pintura, há de encontrar o que procura. Você agora sabe pintar o mar melhor do que ninguém. É só querer, não deixando que mais nada interfira. Apegue-se com vontade ao que você quer realmente realizar. É preciso amar muito a vida pra fazer isso.

A história tem um ritmo próprio, cadenciado, uma malemolência e vamos acompanhando seu desenrolar com inevitável curiosidade. Em Bimini observamos uma vida de tranquilidade, apreciação da beleza do lugar, dias preguiçosos entre refeições praianas e pinturas em tela da beleza paradisíaca do que se vê. A rotina é quebrada com a chegada dos filhos de Hudson e ele tenta fazer o possível para que a alegria dos filhos não mude seus rituais de maneira que venha a envolver-se muito e a sofrer demais com a partida deles. É estranho.

São dias de incomparável beleza e troca de memórias entre todos, lembram de pessoas, acontecimentos, situações e vivência de experiências que promovem o fortalecimento e a metafórica passagem, de um dos filhos, da infância para adolescência numa situação que extenua até o leitor e que lembra o livro “O Velho e o Mar”. Uma sensação que se tem é que aquilo tudo está tão belo que não pode ser real, aquele sentimento de que algo está por vir.

A única coisa que o homem tem é o orgulho. Às vezes a gente tem tanto que chega a ser pecado. Todos nós já fizemos coisas que sabíamos que eram impossíveis só por causa do orgulho. Não ligamos. Mas um homem deve tratar seu orgulho com inteligência e cuidado.

Em “Cuba”, segunda parte, traz um personagem que se depara com questões mais cotidianas e imediatas, memórias de outros tempos, do primeiro grande amor e em sua exagerada entrega à bebida. Em evidente processo de negação do que aconteceu anteriormente, observa o lugar com certa melancolia diante da decadência.

Na terceira parte temos Hudson atuando na Segunda Guerra Mundial e liderando um grupo não tão experiente de soldados, sua presença é forte, atenta e certa da missão que está executando de interceptar e destruir submarinos. Conhecemos táticas de guerra, reflexões sobre como funciona a cabeça do inimigo e, apesar de não lermos uma palavra sobre, as atrocidades da Guerra.

Durante a obra observamos que os diálogos são curtos, objetivos e repletos de questões para pensarmos e provocarmos nossas verdades absolutas. Não afirmo categoricamente sobre a solidão do personagem principal, mas existe algo misterioso que entrecorta a felicidade e as rupturas nos relacionamentos, o fascínio pela pessoa e o distanciamento por falta de uma atitude ou esclarecimento.

Para quem leu “O Velho e o Mar” permanecerá aquela sensação interessante de busca pela superação de si e ao mesmo tempo de aceitação do vivido e daquilo que se tem para hoje, seja a tragédia, o combate em meio a guerra ou a longa tarde de bebedeira e conversa com uma prostituta e ainda a sensação de que temos parte da biografia de Hemingway sob nossos olhos.

Resenha: A Vida do Livreiro A. J. Fikry – Gabrielle Zevin

/Editora Paralela/Resenhas/

Editora: Paralela
Autor: Gabrielle Zevin
ASIN: 9788565530668
Edição: 1
Número de páginas: 192
Acabamento: Brochura
Classificação EDS: 90 de 100 pontos

Livrarias atraem o tipo certo de gente.
É o que descobre A. J. Fikry, dono de uma pequena livraria em Alice Island. O slogan da sua loja é “Nenhum homem é uma ilha; cada livro é um mundo”. Apesar disso, A. J. se sente sozinho, tudo em sua vida parece ter dado errado. Até que um pacote misterioso aparece na livraria. A entrega inesperada faz A. J. Fikry rever seus objetivos e se perguntar se é possível começar de novo. Aos poucos, A. J. reencontra a felicidade e sua livraria volta a alegrar a pequena Alice Island. Um romance engraçado, delicado e comovente, que lembra a todos por que adoramos ler e por que nos apaixonamos.

Minhas Impressões

Ao ler A Vida do Livreiro A.J.Fikry ficamos com um misto de sensações e uma série de observações que devem ser consideradas e vão além do indicamos ou não indicamos. O livro conta a história de um livreiro viúvo, morador de uma ilha em que só chegamos de balsa, solitário, ranzinza, fã e leitor absoluto dos clássicos e que se nega veementemente a abrir-se às novidades editoriais do mercado moderno.

Nenhum homem é uma ilha; cada livro é um mundo

A livraria passa por uma crise financeira e, de certo modo, A. J. Fikry acredita que possuir e leiloar uma relíquia de Edgar Allan Poe pode ajudá-lo a encontrar a saída para o momento delicado.

Os planos do livreiro sofrem uma mudança brusca a partir de uma noite de bebedeira em que simultaneamente dois fatos distintos o atinge, teremos o mistério do roubo da obra de Poe e ainda o recebimento de um pacote muito especial e a partir daí as aventuras de A.J. Fikry passam a ter novo e diferente significado com abertura para o que a vida pode oferecer em suas doçuras e amarguras.

Não somos as coisas que colecionamos, adquirimos, lemos. Somos, enquanto estamos aqui, apenas amor; as coisas que amamos, as pessoas que amamos e estas, acho que estas realmente continuam.

O enredo simples fica um pouco em suspenso pelo excesso de histórias e situações abertas e a objetividade excessiva ao “fechá-las” sem apresentar o desdobramento das situações e que curiosamente sabemos que pode alegrar e facilitar a vida de alguns leitores. A impressão é que alguns desfechos mereceriam um maior contexto justamente pelo entusiasmo que criaram no início.

‘Que bom que leu’, diz Amelia. ‘Implorei para que todo mundo que eu conheço lesse, e ninguém me ouviu. Às vezes os livros só nos encontram no momento certo.’

No decorrer da leitura encontramos várias e várias referências e pensamos em algo do tipo “já li isso em algum lugar” ou “a fulana é bastante semelhante aquela do seriado tal” e sabemos que nada disso é necessariamente errado ou ruim, entendemos a construção de personagens e sabemos a força que a identificação possui, o problema é quando a obra é marcada por questões do tipo transformando-a num roteiro de filme adocicado.

A edição e tradução talvez mereçam um segundo olhar porque tivemos a impressão, nosso exemplar foi o da primeira edição, de que a obra não apresenta o cuidado que os dois quesitos necessitam e não foram poucos os equívocos de concordância e tradução com aparência meio estranha encontrados ao longo da leitura.

Por que um livro é diferente do outro? São diferentes porque são. Temos que abrir muitos. Temos que acreditar. Concordamos com ocasionais decepções para ficarmos maravilhados de vez em quando.

Uma riqueza interessante e diferencial é que a abertura de cada um dos capítulos tem uma citação bacana que valorizou bastante a obra por possuir uma relação com o livreiro e sua personalidade complicada.

Pelo número de páginas e pela narrativa consideramos que pode ser uma daquelas obras para jovens, leitores iniciantes e aos que buscam algo leve para ser lido numa tarde preguiçosa de domingo.

Resenha: Adeus meninos – Louis Malle

/Bertrand Brasil/Resenhas/

Editora: Bertrand Brasil
Autor: Louis Malle
ISBN: 9788528600629
Edição: 1
Número de páginas: 160
Acabamento: Brochura
Classificação EDS: 100 de 100 pontos

Na França, sob ocupação alemã, nasce a amizade entre dois meninos. Porém, os nazistas descobrem a origem judaica de um deles e os separam violentamente. adeus meninos foi inspirado na lembrança mais dramatica de minha infancia. em 1944 eu tinha onze anos e era interno num colegio catolico perto de fontainebleau. um de meus colegas que havia chegado no começo do ano me intrigava muito. ele era diferente discreto. comecei a conhece-lo a ama-lo quando certa manha nosso pequeno mundo desabou. esta manha de 1944 praticamente decidiu minha vocaçao de cineasta. e a minha fidelidade minha referencia. deveria te la feito a materia de meu primerio filme mas hesitava esperava e muito mais…

Minhas Impressões

“Adeus, Meninos” pode ser considerado um clássico do cinema francês, lançado em 1987 tornou-se referência pela abordagem poética de um momento tão delicado e trágico da História e ainda por ser parte importante da biografia do cineasta. Obra essencialmente humana.

O livro apresenta o roteiro do filme e estão lá as falas, as reflexões e a vivência dos personagens, em especial dos meninos Julien e Jean.

A história começa após as férias em que crianças e adolescentes são recebidos de volta ao colégio católico, um internato para famílias de classe social elevada, e temos as situações de algazarra e um pouco de enfado característicos de momentos assim. Somos apresentados ao jovem Julien que escuta, mas não entende as orientações e o discurso da mãe.

O inverno é rigoroso, estamos diante de uma França ocupada pelas tropas de Hitler e, podemos acompanhar em alguns momentos, que os franceses estão confusos diante do enfrentamento, passividade ou do posicionamento frente aos judeus que até então eram amigos, vizinhos e conhecidos.

Julien é um menino inteligente, com características de liderança, é elogiado por professores e, por ser dedicado e com boas notas, tem poucos amigos e certa dificuldade em entender os motivos de ter que ficar no colégio interno acrescido ainda o constante manifesto de saudades da mãe.

A rotina segue até que o padre anuncia a chegada de três novos alunos, um deles Jean Bonnet, garoto tímido, introspectivo e que pouco sabemos, apesar da desconfiança na movimentação de sua chegada, da família e de suas origens. Após as dificuldades iniciais, dos estranhamentos, da competição e do entendimento de que o outro é diferente, surge a aproximação e uma bela e significativa amizade.

O Sr. Florent afina seu violino. Ele vai acompanhar as imagens mudas de Charles Chaplin com a ajuda da senhorita Davenne ao piano. Julien e Jean estão sentados lado a lado. A luz apaga, o projetor começa a fazer barulho e o título do filme aparece sobre a tela. As crianças olham fascinadas, momento terno de esquecimento em que crianças e professores se tornam sonhadores.

Os meninos protagonizam momentos bucólicos em que compartilham a busca por algo maior, sonhos e a meninice do cotidiano escolar, desconfiamos com apreensão que seriam aqueles momentos finais antes da perda da inocência.
Os meninos vão, apesar do pouco tempo de convivência, encantar-se no aprendizado da música e na troca literária secreta, em especial da leitura de “Mil e Uma Noites” e construir uma amizade com vínculo forte e significativo que sentirá o peso tenebroso da guerra.

Temos a escassez de recursos, em especial de alimentos, que marcam momentos de conflitos e guerras. A alimentação e o mercado paralelo será mote para o rompimento do colégio como espaço de proteção.

Os adultos da narrativa são competentes, reais e cientes da definição de seus papéis seja no de provocador da paixão pelo aprendizado em seus alunos, fazendo resistência ao poder dominante ou em dúvida sobre a decisão correta e ética a ser tomada num período bélico.

Louis Malle narrou com beleza e sensibilidade uma memória afetiva que, segundo ele, nunca foi esquecida em sua vida. É uma história de resistência, amizade, relações conflituosos, possibilidade, paixão pelo conhecimento, perplexidade e nó na garganta diante das atrocidades da guerra.

Resenha: O Escafandro e a Borboleta – Jean-Dominique Bauby

/Editora Martins Fontes/Resenhas/

Editora: Martins Fontes
Autor: Jean-Dominique Bauby
ISBN: 9788578279141
Edição: 1
Número de páginas: 128
Acabamento: Brochura
Compre: Amazon
Classificação EDS: 100 de 100 pontos

Em 8 de dezembro de 1995, um acidente vascular cerebral mergulhou brutalmente Jean-Dominique Bauby em coma profundo. Ao sair dele, todas as suas funções motoras estavam deterioradas. Em seu corpo inerte, só um olho se mexia. Esse olho – o esquerdo – é o vínculo que ele tem com o mundo, com os outros, com a vida

Minhas Impressões

Ler “O Escafandro e a Borboleta” é um exercício angustiante. É impossível não pensar na agonia e todo o tipo de sentimentos vividos por Jean-Dominique Bauby após o acidente vascular cerebral que o deixou trancado dentro de si mesmo na denominada síndrome do encarceramento.

O autor faz um relato emocionante e instigante de suas memórias sob a ótica do vivido a partir da condição rara em que, apesar de não conseguir se comunicar, sua consciência, sensibilidade, capacidade de pensar e racionar foram preservadas. A única possibilidade de comunicação com o mundo externo vem do movimento da pálpebra de um dos olhos.

O escafandro já não oprime tanto, e o espírito pode vaguear como borboleta. Há tanta coisa pra fazer. Pode-se voar pelo espaço ou pelo tempo, partir para a Terra do Fogo ou corte do rei Midas. Pode-se visitar a mulher amada, resvalar junto dela e acariciar-lhe o rosto ainda adormecido. Construir castelos de vento, conquistar o Velocino de Ouro, descobrir a Atlântida, realizar sonhos de infância e as fantasias da idade adulta.

É o movimento de um dos olhos que vai permitir a possibilidade de diálogo e a herança da experiência ditada no livro. Jean Dominique conhece uma profissional que apresenta a ele um método interessante em que a quantidade de piscadas determina a letra que se quer pronunciar.

O forte na história é que ele a conta da maneira como é, ironiza em algumas partes, filosofa em outras tantas, sofre e desabafa, mas observo que não existe aquela comiseração e sim algo como “a vida aconteceu” e isso é de cortar porque ele pontua sensações, sabores e emoções que não mais serão possíveis de reviver. Nunca mais.

Escafandro e a Borboleta foi escrito de maneira muito peculiar e fico pensando no exercício de paciência e exaustão que o acompanhou. Letra a letra foram ditadas conforme o sistema de letras aprendido e seus trechos foram lapidados durante as longas noites do hospital.

Tive a oportunidade, há um bom tempo, de assistir ao filme originado na obra, premiado com o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro, e é um dos raros em que sugiro ver antes ou ao invés da leitura do livro. Explico ponderando que o longa apresenta um pouco mais do que acontece ao redor e compartilha ou até mesmo suaviza um pouco o peso da história.

Tanto quanto de respirar, sinto necessidade de emocionar-me, amar e admirar. A carta de um amigo, um quadro de Balthus num cartão-postal, uma página de Saint-Simon dão sentido às horas que passam. Mas, para continuar vigilante e não afundar na resignação indiferente, conservo certa dose de furor, de detestação, nem de mais nem de menos, assim como a panela de pressão tem sua válvula de segurança para não explodir.

Mergulhamos nas sutilezas do cotidiano e ainda temos a oportunidade de pensar o quanto deixamos de ouvir e ver o outro de maneira verdadeira e não estou falando aqui apenas de um outro com uma síndrome que o impede de verbalizar seus desejos e opiniões.

Durante o livro vamos conhecendo a biografia de Jean Dominique através de algumas ponderações sobre sua carreira de sucesso como jornalista redator-chefe da revista Elle, particularidades dos filhos, suas preferências musicais e artísticas, da vida confortável que levava e de como vê as pessoas que o visitam e ainda do tratamento.

Um sentimento estranho e o valor real da vida permanecem conosco por um bom tempo após a leitura. Poderia dizer que é um exercício chocante que amplia nosso olhar para o que é realmente importante, e que vale muito.

Resenha: Sobre a escrita – A Arte em Memórias – Stephen King

/Editora Suma de Letras/Resenhas/

Editora: Suma de Letras
Autor: Stephen King
ISBN: 9788581052779
Edição: 1
Número de páginas: 256
Acabamento: Brochura
Classificação EDS: 100 de 100 pontos

Eleito pela Time Magazine um dos 100 melhores livros de não ficção de todos os tempos e vencedor dos prêmios Bram stoker e Locus na categoria Melhor Não Ficção, Sobre a Escrita: A arte em Memórias é uma obra extraordinária de um dos autores mais bem-sucedidos de todos os tempos, uma verdadeira aula sobre a arte das letras.
O livro também não deixa de lado as memórias e experiências do mestre do terror: desde a infância até o batalhado início da carreira literária, o alcoolismo, o acidente quase fatal em 1999 e como a vontade de escrever e de viver ajudou em sua recuperação.

Minhas Impressões

A leitura de Sobre a Escrita é, como qualquer outra de King, uma experiência absolutamente vibrante e repleta de possibilidades. O que apresentamos aqui são impressões sutis de uma obra completamente encantadora e cheia de confiança de que nós, reles mortais, podemos escrever alguma coisa.

Se você acha que precisa de permissão para se dedicar a toda a leitura e a escrita que seu coraçãozinho deseja, considere-se autorizado por este que vos fala.
Você pode, você deve e, se tomar coragem para começar, você vai. Escrever é algo mágico, é a água da vida, como qualquer outra arte criativa. Então beba. Beba até ficar saciado.

Escrito em primeira pessoa o livro é quase um baú de memórias de toda uma vida, somos introduzidos magicamente a uma biografia fascinante de superação e de método de trabalho incríveis. Stephen King, mestre com as palavras, fala com leveza e humildade de sua história, do legado de sua obra e ainda encoraja seriamente o pobre leitor a escrever!

Você pode encarar o ato de escrever com nervosismo, animação, esperança ou até desespero – aquele sentimento de que nunca será possível pôr na página tudo o que está em seu coração e em sua mente. Você pode ficar com os punhos cerrados e os olhos apertados, pronto para quebrar tudo e dar nome aos bois. Pode ser que você queira que uma garota se case com você, ou deseje mudar o mundo. Encare a escrita como quiser, menos levianamente. Deixe-me repetir: não encare a página em branco de maneira leviana.

O texto é fluido e a trajetória do profissional é apresentada corajosamente, seguimos acompanhando obstáculos, diversos trabalhos negados, distanciamento do objetivo, mudança de planos e, mais do que tudo, a importância da família, em especial da mãe e da mulher, no investimento, encorajamento e fortalecimento do sonho e da carreira.

Gosto quando me deparo com histórias que impõem uma proximidade e cumplicidade de maneira sutil e King faz isso o tempo inteiro, pois ficamos com a impressão de que estamos ali na lanchonete tomando um refresco (ou a bebida de sua preferência) com o autor e falando sobre coisas da vida, literatura e processo de escrita. Uma proximidade real, um vínculo que poucos autores sabem ou querem promover.

No nível mais básico, estamos apenas discutindo uma habilidade aprendida, mas acho que concordamos que mesmo as habilidades mais básicas podem criar coisas além de nossas expectativas. Estamos falando de ferramentas e carpintaria, palavras e estilo… mas, à medida que avançarmos, você fará bem se não esquecer que também estamos falando de mágica.

Podemos entender a obra em dois blocos, o primeiro é voltado para apresentação e a biografia em que encontramos as memórias de infância, perrengues, amigos, questões familiares, influências da mulher amada e o consumo de álcool e outras drogas. O segundo momento é voltado para a reflexão, considerações importantes sobre o exercício da escrita e a necessidade básica da relação entre leitura e escrita.

Como verdadeira possibilidade de aprendizado e reflexão, compartilhamos algumas considerações do autor em nossa leitura de “Sobre a Escrita” :
• Leia muito, um pouco mais e escreva bastante – sem atalhos
• Estabeleça e cumpra uma rotina intensa de leitura e escrita
• Afaste-se da televisão
• Escreva para você mesmo
• Prepare-se para fracassos, falhas e críticas
• Seja verdadeiro em seu processo de escrita
• Não perca tempo tentando agradar aos outros
• Enfrente corajosamente suas dificuldades no processo de escrita
• Durante a escrita estabeleça uma conexão com o mundo interior
• Não seja arrogante ou pretensioso
• Não exagere na preocupação com a gramática
• Evite parágrafos longos e evite advérbios “A estrada para o inferno é pavimentada com advérbios”
• Seja ótimo em descrever, mas sem exageros e deixando algo para o leitor
• Não dê todas as pistas sobre o contexto
• Tenha personalidade e seu estilo
• Dimensione as histórias contadas
• Arrisque-se
• Leve seu processo de escrita com seriedade
• Revise seus trabalhos, desapegue e corte muito do que foi escrito “Só Deus acerta tudo de primeira” .
• Tenha alguém de confiança para compartilhar seus escritos. O “Leitor Ideal”.

No final somos brindados com um exemplo de seu processo criativo, tudo o que o envolve no momento da edição e uma lista de livros já lidos e “mais ou menos” indicados pelo autor.

O que segue é tudo que sei sobre como escrever boa ficção. Serei o mais breve possível, porque seu tempo é valioso e o meu também, e ambos entendemos que as horas gastas falando sobre a escrita são um tempo em que não estamos escrevendo. Serei tão encorajador quanto possível, porque é da minha natureza e porque amo esse trabalho. Quero que você o ame também. Se, no entanto, você não quiser sentar o rabo e trabalhar, não há razão em tentar escrever bem.

Para além do que foi dito, indicamos urgentemente a leitura pelo simples prazer de ler algo com qualidade, sem arrogância e ainda para se inspirar em alguém que ama seu trabalho e o faz com perfeição. Vale muito!