Resenha: Da minha Terra à Terra – Sebastião Salgado

/Editora Paralela/Resenhas/

Editora: Paralela
Autor: Sebastião Salgado e Isabelle Francq
ISBN: 9788565530569
Edição: 1
Número de páginas: 176
Acabamento: Brochura
Classificação EDS:  100 de 100 pontos

As fotos de Sebastião Salgado são famosas no mundo inteiro. Suas imagens em preto e branco de trabalhadores e refugiados já ganharam inúmeros prêmios e são reconhecidas pela profunda dignidade que despertam no interlocutor. Em 2013, depois de oito anos de reportagens, Salgado expôs pela primeira vez o celebrado Projeto Gênesis, que deu origem ao livro de mesmo nome. Em uma jornada fotográfica por lugares intocados, onde o homem convive em harmonia com a natureza, o fotógrafo pôde declarar seu amor à Terra, em sua grandeza e fragilidade. Mas apesar das imagens de Sebastião Salgado já terem dado a volta ao mundo, sua história pessoal, as raízes políticas, éticas e existenciais de seu engajamento fotográfico permaneciam ignoradas.
Em Da Minha Terra à Terra, é seu talento como narrador que surpreende. A autenticidade de um homem que sabe como poucos combinar militância, profissionalismo, talento e generosidade.

Minhas Impressões

Após assistir ao documentário “O Sal da Terra” e ficar encantada com o que foi mostrado da vida e obra de Sebastião Salgado, resolvi dar uma olhada no livro “Da minha terra à Terra”.

Escrito em primeira pessoa e em parceria com a jornalista Isabelle Francq, o livro é leve e conta a trajetória pessoal e profissional do fotojornalista numa sequência gradativa que vai surpreendendo e consolidando o entendimento da conquista de uma notoriedade planetária e quase unânime.

Sebastião Salgado conta a infância bucólica em Minas Gerais, seu desejo de conhecer além das fronteiras, o gosto por viajar, a formação inicial em Economia, sua militância e partida para França em exílio durante a ditadura militar.

Minha fotografia não é uma militância, não é uma profissão. É minha vida. Adoro fotografia, fotografar, estar com a câmera na mão, olhar pelo visor, brincar com a luz. Adoro conviver com as pessoas, observar as comunidades – e agora também os animais, as árvores, as pedras. Minha fotografia é tudo isso, e não posso dizer que são decisões racionais que me levam a olhar para isto ou aquilo. É algo que vem de dentro de mim. O desejo de fotografar está constantemente me levando a recomeçar. A buscar outros lugares. A procurar outras imagens.A tirar novas fotografias, ainda e sempre.

A família é retratada de maneira carinhosa e com potência muito grande para inspiração e suporte de Salgado. A mulher Lélia, companheira de vida, é editora dos livros e organizadora das grandes exposições do fotógrafo, o filho Juliano é cineasta e Rodrigo, portador da síndrome de Down, é apontado pela entrada de todos em um outro nível de percepção: “…Antes, eu não via as pessoas com deficiência. Aprendi a vê-las.”

Na história profissional, uma das observações mais interessantes é o surpreendente processo de criação, planejamento, pesquisa, execução e apresentação final de cada um dos projetos, cuja duração aproximada é de incríveis seis anos. Um período de entrega total, idas e vindas, registros, reflexões, espera, entendimento da singularidade e profundo respeito do que está sendo retratado.

A fotografia é uma escrita tão forte porque pode ser lida em todo o mundo sem tradução.

Nos capítulos que abordam os projetos “Gênesis”, “Outras Américas”, “Êxodos”, “Trabalhadores” e “Terra” encontramos uma aproximação com os bastidores dos trabalhos e sentimos o quanto de verdade e entrega existe em cada um deles.
Em uma passagem mais técnica, apresenta sua opção pelo preto e branco, suas aventuras para garantir o trânsito dos filmes num mundo de aeroportos com equipamentos que podem danificá-los, quantidade de fotos realizadas, qualidade das revelações, das lentes e a passagem do analógico para o digital na fotografia.

Fica evidente que não é, talvez nem tenha a pretensão, a biografia definitiva do percurso vivido até aqui, mas é um registro interessante e curioso de uma vida dedicada ao ato corajoso de descobrir o que se ama e fazê-lo especialmente bem. Merece a leitura para reforçarmos o encantamento por Sebastião Salgado, pela fotografia, pela Humanidade e pela Terra.