Resenha: As ilhas da corrente – Ernest Hemingway

/Bertrand Brasil/Resenhas/

Editora: Bertrand Brasil
Autor: Ernest Hemingway
ASIN: 9788528618716
Edição: 1
Número de páginas: 616
Acabamento: Brochura
Classificação EDS: 100 de 100 pontos

As ilhas da corrente’ narra as aventuras e as tragédias presentes em momentos cruciais da vida do pintor Thomas Hudson – um evidente alterego hemingwayniano. O livro é dividido em três partes. A primeira parte, ‘Bimini’, é ambientada em uma paradisíaca ilha do Caribe onde Hudson – divorciado e beberrão – leva uma vida idílica. Em ‘Cuba’, o segundo segmento, o personagem é um homem atormentado que perde o filho em um acidente. Ao mesmo tempo, reencontra a primeira esposa e revive o final infeliz da grande história de amor de sua vida. A última parte, por sua vez, é um drama de guerra que contém elementos que lembram outras obras de Hemingway. Batizada de ‘No mar’, mostra Hudson como um caçador de submarinos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. As ilhas da corrente é um retrato brilhante da vida de um homem complexo e intrigante. Nestas páginas, Hemingway alcança o seu zênite de maturidade literária.

Minhas Impressões

A leitura de “As Ilhas da Corrente”, obra póstuma, foi um exercício interessante de redescobrimento e retomada da paixão pelo autor e reforço do fascínio pelo mar. É simplesmente impossível, eu garanto, acompanhar o desenvolvimento da narrativa sem sentir a brisa, o céu, o sol e sem imaginar que se está nas ilhas caribenhas diante do esplendor da natureza descrita pelo autor.

Dividida em três partes, chega a deixar o leitor meio confuso pela aparente falta de desfecho e sequência lógica entre elas, mas veremos que “Bimini”, “Cuba” e “No Mar”, se completam e explicam o personagem principal. O leitor vai construindo e entendendo Thomas Hudson no ir e vir de personagens, memórias e reflexões que possuem ainda uma carga de identidade biográfica com Hemingway.

Há tantos quadros ótimos pra pintar e se você der o máximo de si, se abstendo de tudo e só se dedicando à pintura, há de encontrar o que procura. Você agora sabe pintar o mar melhor do que ninguém. É só querer, não deixando que mais nada interfira. Apegue-se com vontade ao que você quer realmente realizar. É preciso amar muito a vida pra fazer isso.

A história tem um ritmo próprio, cadenciado, uma malemolência e vamos acompanhando seu desenrolar com inevitável curiosidade. Em Bimini observamos uma vida de tranquilidade, apreciação da beleza do lugar, dias preguiçosos entre refeições praianas e pinturas em tela da beleza paradisíaca do que se vê. A rotina é quebrada com a chegada dos filhos de Hudson e ele tenta fazer o possível para que a alegria dos filhos não mude seus rituais de maneira que venha a envolver-se muito e a sofrer demais com a partida deles. É estranho.

São dias de incomparável beleza e troca de memórias entre todos, lembram de pessoas, acontecimentos, situações e vivência de experiências que promovem o fortalecimento e a metafórica passagem, de um dos filhos, da infância para adolescência numa situação que extenua até o leitor e que lembra o livro “O Velho e o Mar”. Uma sensação que se tem é que aquilo tudo está tão belo que não pode ser real, aquele sentimento de que algo está por vir.

A única coisa que o homem tem é o orgulho. Às vezes a gente tem tanto que chega a ser pecado. Todos nós já fizemos coisas que sabíamos que eram impossíveis só por causa do orgulho. Não ligamos. Mas um homem deve tratar seu orgulho com inteligência e cuidado.

Em “Cuba”, segunda parte, traz um personagem que se depara com questões mais cotidianas e imediatas, memórias de outros tempos, do primeiro grande amor e em sua exagerada entrega à bebida. Em evidente processo de negação do que aconteceu anteriormente, observa o lugar com certa melancolia diante da decadência.

Na terceira parte temos Hudson atuando na Segunda Guerra Mundial e liderando um grupo não tão experiente de soldados, sua presença é forte, atenta e certa da missão que está executando de interceptar e destruir submarinos. Conhecemos táticas de guerra, reflexões sobre como funciona a cabeça do inimigo e, apesar de não lermos uma palavra sobre, as atrocidades da Guerra.

Durante a obra observamos que os diálogos são curtos, objetivos e repletos de questões para pensarmos e provocarmos nossas verdades absolutas. Não afirmo categoricamente sobre a solidão do personagem principal, mas existe algo misterioso que entrecorta a felicidade e as rupturas nos relacionamentos, o fascínio pela pessoa e o distanciamento por falta de uma atitude ou esclarecimento.

Para quem leu “O Velho e o Mar” permanecerá aquela sensação interessante de busca pela superação de si e ao mesmo tempo de aceitação do vivido e daquilo que se tem para hoje, seja a tragédia, o combate em meio a guerra ou a longa tarde de bebedeira e conversa com uma prostituta e ainda a sensação de que temos parte da biografia de Hemingway sob nossos olhos.