Resenha: A Festa da Insignificância – Milan Kundera

/Editora Companhia das Letras/Resenhas/

Editora: Companhia das Letras
Autor: Milan Kundera
ISBN: 9788535924664
Edição: 1
Número de páginas: 136
Acabamento: Encadernado
Classificação EDS: 100 de 100 pontos

Autor de romances, volumes de contos, ensaios, uma peça de teatro e alguns livros de poemas, Milan Kundera, nascido na República Tcheca e naturalizado francês, é um dos maiores intelectuais vivos. Ficou especialmente conhecido por aquela que é considerada sua obra-prima, A insustentável leveza do ser, adaptada ao cinema por Philip Kaufman em 1988. Vencedor de inúmeros prêmios, como o Grand Prix de Littérature da Academia Francesa pelo conjunto da obra e o Prêmio da Biblioteca Nacional da França, Kundera costuma figurar entre os favoritos ao Nobel de Literatura. Seus livros já foram traduzidos para mais de trinta línguas, e há mais de quinze anos o autor tem sua obra publicada no Brasil pela Companhia das Letras.
Em 2013, o mundo editorial se surpreendeu com um novo romance de Kundera, que já não publicava obras de ficção desde o lançamento de A ignorância, em 2002. A festa da insignificância foi aclamado pela crítica e despertou enorme interesse dos leitores na França e na Itália, onde logo figurava em todas as listas de best-sellers.

Minhas Impressões

A Festa da Insignificância ganhou minha atenção pelo nome, que remete aos tempos modernos e líquidos onde tudo é muito superficial, autor, sua edição belíssima com capa dura, espaçamento convidativo e a “aparente” leveza na leitura.

A partir da primeira fase a atenção virou aquele incômodo de quando não estamos entendendo muito bem a obra. Sem sequência linear e numa atmosfera parisiense somos apresentados a Alain, Ramon, D’Ardelo, Charles e Calibã que em suas vivências cotidianas provocarão questões pertinentes ao desenvolvimento, ao relacionamento e as fraquezas humanas.

O ser humano é apenas solidão.

Encontramos situações em que o personagem carrega a dor do abandono materno chegando a estabelecer longos diálogos imaginários sobre as razões que geraram a partida da mãe, outro que em consulta médica fica surpreso com o diagnóstico negativo para um câncer e, não se sabe por quais razões, mente a um amigo dizendo que está com os dias contados e há ainda o que, sendo um ator frustrado, trabalha como garçom fingindo ser paquistanês.

A história segue através da divagação e ação dos personagens frente a questões contemporâneas como na crítica aos que tomam sorvete, correm e lotam a fila de uma exposição de Chagal com a mesma naturalidade, quase que num exibicionismo e questiona se, de fato, gostam do artista ou estão dispostos a qualquer coisa para matar o tempo;

O tempo corre. Graças a ele, em primeiro lugar estamos vivos, o que quer dizer: acusados e julgados. Depois, morremos, e continuamos ainda alguns anos com aqueles que nos conheceram, mas não demora a ocorrer outra mudança: os mortos se tornam velhos mortos, ninguém se lembra mais deles e eles desaparecem no nada; apenas alguns, raríssimos, deixam seus nomes nas memórias, mas privados de todo testemunho autêntico, de toda lembrança real, transformam-se em marionetes…

Alain, um dos personagens, escancara a despersonalização ao tecer longa reflexão sobre a moda em que as moças “mostram o umbigo” , pondera sobre o encanto da sedução dos seios, das coxas, da bunda e a particularidade dessa orientação erótica confrontando com o objeto de sedução centrado no meio do corpo;

Há ainda uma forte e calorosa discussão sobre Stalin, uma festa estranha, situações em suspenso e toda a sorte de possibilidade de reflexão frente aos acontecimentos.

Nós compreendemos há muito tempo que não era possível mudar este mundo, nem remodelá-lo, nem impedir sua infeliz trajetória para a frente. Havia uma única resistência possível: não levá-lo a sério.

Milan Kundera e seus títulos incríveis sempre me interessaram, mas é certo que A Festa da Insignificância deixou dúvida sobre o entendimento da obra e autor, mergulhei e fiquei perdida diante de tantas reflexões suscitadas numa época histórica em que o importante, o que realmente tem significado, fica perdido nas entrelinhas obscuras.