Resenha: Número Zero – Umberto Eco

/Editora Record/Resenhas/

Editora: Record
Autor: Umberto Eco
ISBN: 9788501104670
Edição: 1
Número de páginas: 208
Acabamento: Brochura
Classificação EDS: 100 de 100 pontos

Um grupo de redatores, reunido ao acaso, prepara um jornal. Não se trata de um jornal informativo; seu objetivo é chantagear, difamar, prestar serviços duvidosos a seu editor. Um redator paranoico, vagando por uma Milão alucinada (ou alucinado numa Milão normal), reconstitui cinquenta anos de história sobre um cenário diabólico, que gira em torno do cadáver putrefato de um pseudo-Mussolini. Nas sombras, a Gladio, a loja maçônica P2, o assassinato do papa João Paulo I, o golpe de Estado de Junio Valerio Borghese, a CIA, os terroristas vermelhos manobrados pelos serviços secretos, vinte anos de atentados e cortinas de fumaça – um conjunto de fatos inexplicáveis que parecem inventados, até um documentário da BBC mostrar que são verídicos, ou que pelo menos estão sendo confessados por seus autores.

Minhas Impressões

Sou fã de Umberto Eco pela história e mítica contada em “O Nome da Rosa”. O livro me levou a começar a entender que o aprendizado na escola, mostrando a Idade Média como marcada pelas trevas porque o conhecimento tinha ficado “em suspenso”, era balela. Tudo estava lá, fervilhando, preservado e na mão de poucos.

Em seu novo romance o autor apresenta uma história surreal que, entre outras questões, reacende o sinal de alerta a respeito do poder dos meios de comunicação. Acompanhamos a implantação de um jornal que não existe, um composto de doze “Números Zero” que apresentarão notícias projetadas em algo que já aconteceu, produzindo desdobramentos possíveis, inverossímeis e de leitura que servirá a interesses específicos.

…mas meu pai me acostumou a não acreditar em todas as notícias. Os jornais mentem, os historiadores mentem, a televisão hoje mente.

O pano de fundo da narrativa está na ambientação do momento histórico italiano no ano de 1992 em que vieram à tona escândalos de corrupção. O livro é narrado em primeira pessoa pelo ghost-writer “Colonna” que passa a trabalhar no projeto de um comendador bastante influente e endinheirado que quer ainda mais poder usando para isso a manipulação da notícia.

Chamado “Amanhã” o jornal tem todos os ingredientes fantasiosos, mentirosos, investigações que desqualificam as vítimas e denunciantes, criações fantasiosas diversas, suposições acerca do assassinato de um Papa e de uma sensacional fuga de Benito Mussolini em que foi apresentado um cadáver que não era o dele enquanto o próprio fugia para Argentina.

Por vários momentos ficamos com aquela sensação de que estamos perdendo a linha de raciocínio da história e a impressão que tenho é de que foi proposital. O autor coloca as situações num emaranhado de notícias, acontecimentos e fatos que nos deixa aturdidos tentando organizar as ideias e acho que é uma pegadinha inteligente e irônica para mostrar o poder de manipulação da mídia.

…Percebam que hoje, para contra-atacar uma acusação não é necessário provar o contrário, basta deslegitimar o acusador.

Fiz a opção pela leitura crua sem pesquisar os fatos históricos, quis aproveitar as reflexões sobre a “imprensa marrom” e como funcionam as criações das notícias, o uso de pessoas da opinião pública para legitimar uma ideia que é do jornal e toda a sorte de absurdos que circundam o mau jornalismo.

Certamente não é o melhor livro de Umberto Eco, mas sem dúvida provoca diversas reflexões sobre o momento em que vivemos bombardeados por informações que são passíveis de compartilhamento sem que antes seja verificado a veracidade dos fatos. Hoje é o Amanhã da obra.