Resenha: Sempre em movimento – Oliver Sacks

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Editora: Companhia das Letras
Autor: Oliver Sacks
ISBN: 9788535926132
Edição: 1
Número de páginas: 416
Acabamento: Brochura
Classificação EDS: 100 de 100 pontos
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Quando Oliver Sacks tinha doze anos, um professor bastante sagaz escreveu numa avaliação: “Sacks vai longe, se não for longe demais”. Hoje está absolutamente claro que Sacks jamais parou de ir. Desde as primeiras páginas, onde ele relata sua paixão de juventude pelas motos e pela velocidade, Sempre em movimento parece estar carregado dessa energia. Conforme fala de sua experiência como jovem neurologista no início dos anos 1960 – primeiro na Califórnia, onde lutou contra o vício em drogas, e depois em Nova York, onde descobriu uma doença esquecida nos fundos de um hospital —, vemos como sua relação com os pacientes veio a definir sua vida. Com a honestidade e humor que lhe são característicos, Sacks nos mostra como a mesma energia que motiva suas paixões “físicas” – levantamento de peso e natação – alimenta suas paixões cerebrais. Sacks escreve sobre seus casos de amor, tanto os românticos quanto os intelectuais, sobre a culpa de abandonar a família para vir aos Estados Unidos, sua ligação com o irmão esquizofrênico e sobre os escritores e cientistas – Thom Gunn, A. R. Luria, W. H. Auden, Gerald M. Edelman, Francis Crick – que o influenciaram. Sempre em movimento é a história de um pensador brilhante e nada convencional, o homem que iluminou as muitas formas com que o cérebro nos faz humanos.

Minhas impressões

Muitos e muitos anos atrás assisti “Tempo de Despertar”, um filme clássico simplesmente fascinante e acredito que tenha sido este o momento em que o nome “Oliver Sacks” ficou gravado como interessante para mim, pois não tenho nenhuma outra referência de leitura para afirmar o ponto em que o autor viria à tona. Seu falecimento em agosto de 2015 fez com que buscasse algo para legitimar o sentimento positivo sobre alguém que tocou verdadeiramente as pessoas e suas dores até os últimos instantes de vida.

Busquei seus livros, suas histórias, li um livrinho de despedida belíssimo chamado “Gratidão”, originalmente um ensaio publicado pelo jornal The New York Times, e cheguei a sua biografia “Sempre em Movimento – Uma Vida” ficando simplesmente de boca aberta com a VIDA intensa e com todas as letras maiúsculas que teve!

A autobiografia é inspiradora e com uma narrativa que mescla trajetória pessoal e profissional pautada na Filosofia, na Arte, na Literatura e principalmente na Ciência. Somos introduzidos em capítulos que vão dissertar sobre o funcionamento do cérebro e sua complexidade e com alguns destaques para o convívio familiar tradicional e dúvidas acerca das relações humanas entre outras muitas provocações do vivido.

Conta seu percurso estudantil de maneira provocadora, a elaboração e acompanhamento de pesquisas impressionantes, seu processo de estudo, sua capacidade surreal de registro em que ele fala da escrita de cadernos e mais cadernos sobre suas observações, interpretações e reflexões e também de suas inúmeras publicações nos mais diversos veículos.

Eu andava pensando sobre o tempo – o tempo e percepção, tempo e consciência, tempo e memória, tempo e música, tempo e movimento. Voltara mais especificamente a questionar se a passagem aparentemente contínua do tempo e do movimento, fornecida pelos nossos olhos, era uma ilusão.

É de reforçar a esperança na humanidade lermos sobre a interação com os pacientes e tentativas, por vezes frustradas e um tanto perigosas, de encontrar a cura para a doença ou cuidados paliativos. Sua compaixão para com os enfermos é de impressionar, o interesse legítimo em entender o que estava acontecendo com a pessoa para então sugerir e acompanhar o tratamento são difíceis de observar em nosso cotidiano.

Como não poderia deixar de ser, a vida profissional não foi fácil e nem foram todos os cientistas e acadêmicos que compartilharam dos seus métodos, por vezes pouco ortodoxos, como médico e professor o que provocou conflito, mas também crescimento e revisão de suas observações e estudos para enfrentar o ceticismo dos colegas.

A história de vida de Sacks vai sendo descortinada de forma bastante intensa e ele conta, alternando passagens engraçadas e dramáticas, seu envolvimento com drogas, sua vida sexual, seu longo e impressionante período celibatário, sobre amores platônicos e frustrações amorosas espetaculares. Fica evidente o papel determinante na questão dos vínculos familiares e o quanto a negação inicial da mãe quanto à homossexualidade do filho foi marcante.

A quebra de paradigma interessante no senso comum de quem olha o perfil do cientista é a sua profunda e alucinante paixão pelo motociclismo, até quem não gosta de motos tem vontade de pegar uma motoca e sair pela estrada sentindo o vento no rosto e o gosto da aventura após a leitura de seus belos relatos e, como se não fosse suficiente termos um cientista motociclista, somos apresentados a um Sacks campeão de fisiculturismo e amante do nado.

Existe união direta entre um indivíduo e uma motocicleta, pois ela é tão equipada para a cinestesia, para os movimentos e posições das pessoas, que reage como se fizesse parte do seu corpo. Moto e motociclista se tornam uma entidade única e indivisível.

Dizem que pessoas voltadas para a ciência mantém viva a curiosidade infantil para continuar pesquisando, perguntando e conhecendo o mundo e isso é observável no livro, a autobiografia aponta vários momentos em que o autor abandona o senso comum e questiona o que está acontecendo, aborda pessoas desconhecidas para perguntar o que tem e por aí vai.

Fica evidente, apesar de uma troca intensa de correspondência com as mais diversas pessoas e linhas de estudo, a timidez de Sacks e a dificuldade em alguns relacionamentos, mas não sabemos o quanto a questão determinou sua biografia.

Não posso fingir não ter medo. Mas o sentimento que predomina em mim é a gratidão. Eu amei e fui amado; tive muito e dei muito em troca; eu li, e viajei, e pensei, e escrevi. Acima de tudo, um animal pensante sobre este belo planeta, o que, por si só, já foi um enorme privilégio e uma aventura.

O livro é recheado de fotos dos mais diversos momentos contados e servem como ilustração da história incrível que vai sendo contada.

Ao final, é inevitável aquela reflexão e um olhar para nossa vida nos perguntando que movimento estamos fazendo. Quais os combustíveis provocam tal movimento? Qual a dosagem de Paixão e Entusiasmo empenhamos em nossa História? Vale a provocação e a leitura empolgante! Até!