Resenha: Desonra – J. M. Coetzee

/Editora Companhia das Letras/Resenhas/

Editora: Suma de Letras
Autor: Stephen King
ISBN: 9788535900804
Edição: 1
Número de páginas: 248
Acabamento: Brochura
Classificação EDS: 100 de 100 pontos
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Sucesso de público e crítica – foi publicado em mais de vinte países e ganhou o Booker Prize, o mais importante prêmio literário da Inglaterra -, Desonra é considerado o melhor romance de J. M. Coetzee. O livro conta a história de David Lurie, um homem que cai em desgraça. Lurie é um professor de literatura que não sabe como conciliar sua formação humanista, seu desejo amoroso e as normas politicamente corretas da universidade onde dá aula. Mesmo sabendo do perigo, ele tem um caso com uma aluna. Acusado de abuso, é expulso da universidade e viaja para passar uns dias na propriedade rural da filha, Lucy.
No campo, esse homem atormentado toma contato com a brutalidade e o ressentimento da África do Sul pós-apartheid. Com personagens vivos, com um ritmo narrativo que magnetiza o leitor, Desonra investiga as relações entre as classes, os sexos, as raças, tratando dos choques entre um passado de exploração e um presente de acerto de contas, entre uma cultura humanista e uma situação social explosiva.

Minhas impressões

Ler Desonra é garantir por um bom tempo aquele sem-número de reflexões sobre processo histórico, questões que permeiam envelhecimento, sentido da vida, mediocridade e por aí vai dependendo apenas do perfil e momento vivido pelo leitor. A única certeza é a de que é uma história em que ficamos presos do início ao fim e simplesmente não conseguimos parar.

Resenha: Trinta e Poucos, Crônicas – Antônio Prata

/Editora Companhia das Letras/Resenhas/

Editora: Companhia das Letras
Autor: Antônio Prata
ISBN: 9788535927689
Edição: 1
Número de páginas: 232
Acabamento: Brochura
Classificação EDS: 100 de 100 pontos
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Mais que qualquer escritor em atividade, Antonio Prata é cultor do gênero -consagrado por gigantes do porte de Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino e Nelson Rodrigues – que fincou raízes por aqui: a crônica.
Pode ser um par de meias, uma semente de mexerica, uma noite maldormida, a compra de um par de óculos, a tentativa de fazer exercícios abdominais. Quanto mais trivial o ponto de partida, mais cheio de sabor é o texto, mais surpreendente é a capacidade de extrair sentido e lirismo da aparente banalidade.

Minhas impressões

O que mais me encanta ao ler uma crônica é aquela sensação de proximidade com a história contada e a falsa ilusão de que qualquer um pode escrever, bastando apenas pegar a caneta ou algum outro suporte e deixar fluir a memória contando a cena engraçada que presenciamos dentro do transporte coletivo ou algum questionamento existencial.

Resenha: Sempre em movimento – Oliver Sacks

/Editora Companhia das Letras/Resenhas/

Editora: Companhia das Letras
Autor: Oliver Sacks
ISBN: 9788535926132
Edição: 1
Número de páginas: 416
Acabamento: Brochura
Classificação EDS: 100 de 100 pontos
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Quando Oliver Sacks tinha doze anos, um professor bastante sagaz escreveu numa avaliação: “Sacks vai longe, se não for longe demais”. Hoje está absolutamente claro que Sacks jamais parou de ir. Desde as primeiras páginas, onde ele relata sua paixão de juventude pelas motos e pela velocidade, Sempre em movimento parece estar carregado dessa energia. Conforme fala de sua experiência como jovem neurologista no início dos anos 1960 – primeiro na Califórnia, onde lutou contra o vício em drogas, e depois em Nova York, onde descobriu uma doença esquecida nos fundos de um hospital —, vemos como sua relação com os pacientes veio a definir sua vida. Com a honestidade e humor que lhe são característicos, Sacks nos mostra como a mesma energia que motiva suas paixões “físicas” – levantamento de peso e natação – alimenta suas paixões cerebrais. Sacks escreve sobre seus casos de amor, tanto os românticos quanto os intelectuais, sobre a culpa de abandonar a família para vir aos Estados Unidos, sua ligação com o irmão esquizofrênico e sobre os escritores e cientistas – Thom Gunn, A. R. Luria, W. H. Auden, Gerald M. Edelman, Francis Crick – que o influenciaram. Sempre em movimento é a história de um pensador brilhante e nada convencional, o homem que iluminou as muitas formas com que o cérebro nos faz humanos.

Minhas impressões

Muitos e muitos anos atrás assisti “Tempo de Despertar”, um filme clássico simplesmente fascinante e acredito que tenha sido este o momento em que o nome “Oliver Sacks” ficou gravado como interessante para mim, pois não tenho nenhuma outra referência de leitura para afirmar o ponto em que o autor viria à tona. Seu falecimento em agosto de 2015 fez com que buscasse algo para legitimar o sentimento positivo sobre alguém que tocou verdadeiramente as pessoas e suas dores até os últimos instantes de vida.

Resenha: Cidade em Chamas – Garth Risk Hallberg

/Editora Companhia das Letras/Resenhas/

Editora: Companhia das Letras
Autor: Garth Risk Hallberg
ISBN: 9788535927047
Edição: 1
Número de páginas: 1048
Acabamento: Brochura
Classificação EDS: 100 de 100 pontos
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Nova York, 1976. O sonho hippie acabou, e dos escombros surge uma nova cultura urbana. Saem as mensagens de paz e amor e as camisetas tingidas, entram as guitarras desafinadas, os acordes raivosos e os coturnos caindo aos pedaços. Por toda a cidade brotam galerias de arte e casas de show esfumaçadas. É nesse cenário que Garth Risk Hallberg situa esta obra colossal, aclamada pela crítica como uma das grandes estreias literárias de nosso tempo.
Regan e William são irmãos e herdeiros de uma grande fortuna. Ela, uma legítima Hamilton-Sweeney e eternamente preocupada com o futuro da família, vê seu casamento desmoronar em meio às infidelidades do marido. Ele, a ovelha negra, fundador de uma mitológica banda punk, artista plástico recluso e figura lendária das artes nova-iorquinas. Ao redor dos dois gira uma constelação de tipos e acasos. A jovem fotógrafa que descobre um influente movimento musical pelas ruas da cidade. O jovem professor negro e gay que chega do interior e se apaixona pelo misterioso artista. O grupo de ativistas que pode ou não estar levando longe demais o sonho de derrubar o establishment. O garoto careta e asmático que se apaixona pela punk indomável. O repórter que sonha ser o novo nome do jornalismo literário americano. E, em meio a tudo isso, um crime que vai cruzar suas vidas de forma imprevisível e irremediável.
Combinando o ritmo de um thriller ao escopo dos grandes épicos da literatura, Garth Risk Hallberg constrói um meticuloso retrato de uma metrópole em transformação. Dos altos salões do poder às ruelas do subúrbio, ele captura a explosão social e artística que definiu uma década e transformou o mundo para sempre. Cidade em chamas é um romance inesquecível sobre amor, traição e perdão, sobre arte e punk rock. Sobre pessoas que precisam umas das outras para sobreviver. E sobre o que faz a vida valer a pena.

Minhas impressões

O primeiro lugar que ouvi falar sobre este livro foi no Risca Faca, vou mostrar o link somente no final da resenha, pois se vocês lerem a resenha deles, vão acabar achando a minha horrível rs (quando eu crescer quero escrever como eles =] )

Resenha: Caminhos Cruzados – Erico Verissimo

/Editora Companhia das Letras/Resenhas/

Editora: Companhia das Letras
Autor: Erico Verissimo
ISBN: 9788535926712
Edição: 1
Número de páginas: 368
Acabamento: Brochura
Classificação EDS: 100 de 100 pontos
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Publicado em 1935, Caminhos cruzados é um romance urbano e de aguda observação social. Tendo como cenário uma Porto Alegre onde já se confrontavam modernização e miséria, afluência e desencanto, o texto de Erico Verissimo chocou os leitores de sua época pela exposição realista do descompasso brasileiro entre as diversas camadas sociais — e ainda hoje reverbera graças à abordagem narrativa adotada pelo autor. Influenciado pela técnica de intrigas entrelaçadas e pela ausência de personagem principal da ficção e sem narrar acontecimentos de vulto, o autor expõe o nervo da fragilidade humana num painel vivo e eletrizante de um tempo e de um país em transformação.

Minhas impressões

Tenho um profundo fascínio pelo escritor Erico Verissimo, nas livrarias flerto há anos com a série “O Tempo e o Vento” e venho adiando sua leitura como quem adia, sem motivo aparente, aquela viagem dos sonhos. O encantamento tem como histórico a experiência que tive com “Olhai os Lírios do Campo” que está entre os melhores e mais tristes de minha memória leitora.

Enquanto não encaro “a viagem” optei por ler Caminhos Cruzados que é um livro em que precisamos de atenção, pois como o nome já diz, teremos o entrecruzamento de histórias de vida em que os mais diversos sentimentos serão mostrados como que em uma novela.

Resenha: A balada de Adam Henry – Ian Mcewan

/Editora Companhia das Letras/Resenhas/

Editora: Companhia das Letras
Autor: Ian Mcewan
ISBN: 9788535925135
Edição: 1
Número de páginas: 167
Acabamento: Brochura
Classificação EDS: 100 de 100 pontos
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Poucos autores de língua inglesa são mais importantes na atualidade do que Ian McEwan. Em quarenta anos de carreira, ele compôs marcos da literatura contemporânea, como Amor sem fim (1997), Amsterdam (1998) e Reparação (2001). Seus livros são conhecidos pela precisão da prosa, pela atmosfera de suspense e estranhamento e também pelas viradas surpreendentes da trama, que puxam o tapete do leitor ao final do livro.
Nos últimos anos, o traço decisivo de sua literatura tem sido a defesa da racionalidade científica contra os fundamentalismos religiosos. É esse o embate que está no cerne de seu romance mais recente, A balada de Adam Henry. A personagem central é Fiona Maye, uma juíza do Tribunal Superior especialista em Direito da Família. Ela é conhecida pela “imparcialidade divina e inteligência diabólica”, na definição de um colega de magistratura. Mas seu sucesso profissional esconde fracassos na vida privada. Prestes a completar sessenta anos, ela ainda se arrepende de não ter tido filhos e vê seu casamento desmoronar.

Minhas impressões

Eu ia começar essa resenha falando que este livro é um romance de tirar o fôlego, mas não é. Na verdade não sei muito bem como falar de romances, pois não é muito meu tipo de leitura. O que posso dizer é que o livro é excelente.

Este é o segundo livro que leio da TAG (clube de livros que já citei numa resenha anterior). Como sempre, eu não leio as sinopses dos livros, pois podem acabar estragando a surpresa, e não foi diferente com este. Confesso que conhecia este autor somente de nome, pois ele é super prestigiado, mas não havia lido nada até o momento. Além do autor, o que me chamou a atenção foi o título da obra. Associei imediatamente o título à música clássica, peças de ópera, etc. Fiquei muito feliz em ver que era mais que isso.

Resenha: O amante de lady Chatterley – D. H. Lawrence

/Editora Martin & Claret/Resenhas/

Editora: Martin & Claret
Autor: D. H. Lawrence
ASIN: 9788563560094
Edição: 1
Número de páginas: 379
Acabamento: Brochura
Classificação EDS: 100 de 100 pontos
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Poucos meses depois de seu casamento, Constance Chatterley, uma garota criada numa família burguesa e liberal, vê seu marido partir rumo à guerra. O homem que ela recebe de volta está paralisado da cintura para baixo, e eles se recolhem na vasta propriedade rural dos Chatterley. Inteiramente devotado à sua carreira literária e depois aos negócios da família, Clifford vai aos poucos se distanciando da mulher. Isolada, Constance encontra companhia no guarda-caças Oliver Mellors, um ex-soldado que resolveu viver no isolamento após sucessivos fracassos amorosos.
Último romance do autor, O amante de lady Chatterley foi banido em seu lançamento, em 1928, e só ganhou sua primeira edição oficial na Inglaterra em 1960, quando a editora Penguin enfrentou um processo de obscenidade para defender o livro. Àquela altura, já não espantava mais os leitores o uso de ‘palavras inapropriadas’ e as descrições vivas e detalhadas dos encontros sexuais de Constance Chatterley e Oliver Mellors. O que sobressaía era a força literária de Lawrence e a capacidade de capturar uma sociedade em transição.

Minhas impressões

A primeira vez que ouvi falar de “O Amante de Lady Chatterley” foi em um dos episódios da série Mad Man onde um exemplar do livro, visivelmente amassado e surrado, passava sorrateiro e entre risos pelas mãos das recepcionistas e secretárias do famoso escritório de publicidade.

Considerando a época e toda a questão de gênero envolvidos no seriado, ficou fácil a indicação de que o livro teria forte conotação sexual. O fato é que pouco tempo depois encontrei a obra e mergulhei em sua leitura que é realmente muito envolvente.

Narrado em terceira pessoa conta a história de Constance Chatterley, jovem a frente de seu tempo, emancipada e cheia de ideias, que logo após o casamento vê o marido ser convocado para a guerra e retornar paraplégico. A situação faz com que o casal mude para um lugar bastante ermo e bucólico, descrito com perfeição pelo autor, próximo apenas da mineradora da família do marido o que acaba provocando profunda inquietação na personagem central.

Resenha: MAUS – A História de um Sobrevivente – Art Spiegelman

/Editora Companhia das Letras/Resenhas/

Editora: Companhia das Letras
Autor: Art Spiegelman
ASIN: 9788535906288
Edição: 1
Número de páginas: 296
Acabamento: Brochura
Classificação EDS: 100 de 100 pontos
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Maus (‘rato’, em alemão) é a história de Vladek Spiegelman, judeu polonês que sobreviveu ao campo de concentração de Auschwitz, narrada por ele próprio ao filho Art. O livro é considerado um clássico contemporâneo das histórias em quadrinhos. Foi publicado em duas partes, a primeira em 1986 e a segunda em 1991. No ano seguinte, o livro ganhou o prestigioso Prêmio Pulitzer de literatura.
A obra é um sucesso estrondoso de público e de crítica. Desde que foi lançada, tem sido objeto de estudos e análises de especialistas de diversas áreas – história, literatura, artes e psicologia. Em nova tradução, o livro é agora relançado com as duas partes reunidas num só volume.

Minhas impressões

Sim é um livro sobre o Holocausto, MAUS não é mais do mesmo em relação ao tema, é uma obra importante porque aborda sinceramente, pela via das questões familiares dos sobreviventes, as heranças de um período tão tenebroso. É crucial que ainda mais seja escrito, filmado, cantado e divulgado não importando a mídia ou a linguagem para que não esqueçamos e para que nunca mais se repita algo do tipo na História da Humanidade.

A obra é autobiográfica e vai permear a história do próprio autor, Art Spiegelman, enquanto filho de um pai, Vladek Spiegelman, judeu polonês que sobreviveu aos mais diferentes períodos e sofrimentos impostos pela Segunda Guerra Mundial.

História em Quadrinhos de primeira qualidade com traços característicos do artista, desenhado e escrito em preto e branco, a partir do relato do pai é uma opção interessante pela marcação das personagens: os nazistas são desenhados como gatos, os poloneses aparecem retratados como porcos, os norte americanos como cachorros e os judeus como ratos numa representação criativa dos papeis de cada um naquele momento e em uma inspiração na cadeia alimentar.

A história da Guerra é narrada de pai para filho que registra tudo em um gravador nas sessões de entrevista que, como não poderia deixa de ser, esbarram em feridas, cicatrizes, situações que beiram a comicidade tamanha tragédia embutida. Art entra em crise em vários momentos pensando na legitimidade do que está fazendo, na exposição de um pai que sobreviveu à sua maneira e que ficou com sequelas muito sérias que dificultaram sua vida no momento pós-guerra, marcas que magoam e chegam a envergonhar.

“(Suspiro) É muito esquisito tentar reconstruir uma realidade pior do que os meus sonhos mais pavorosos. E ainda por cima em Quadrinhos! Acho que estou dando um passo maior do que as pernas, talvez seja melhor deixar pra lá.

Da triste odisséia vivida é muito bonito o modo como o pai procurou desesperadamente garantir a sobrevivência da mulher, existe ali uma história de amor singular e que merece destaque. Anja era “cuidada” de alguma maneira e estimulada a ter alguma esperança ou a simplesmente continuar vivendo.

Meu pai a encontrou ao chegar do trabalho…os pulsos cortados e um vidro de comprimidos vazios.

Não foram poucos os momentos em que interrompi a leitura para desfazer o nó na garganta diante do registro do pai pelas atrocidades do período e das estratégias para continuar vivendo e do filho em compreender e exercitar a compaixão para conviver com alguém com tanto resquício de sofrimento.

O livro foi publicado em duas fases, a primeira em 1986 e a segunda em 1991. A edição lida foi a lançada pela Cia das Letras – Quadrinhos na CIA – já em volume único e com o selo de obra vencedora do prêmio Pulitzer.

Tanta coisa eu nunca vou conseguir entender nem visualizar. É que a realidade é complexa demais para ser contada em quadrinhos.

MAUS é um livro forte, ácido, triste, emocionante e que merece uma leitura generosa de suas páginas. É comovente sem ser piegas, trata de um tema pesado que, assim como a escravidão em terras brasileiras, gostaríamos de esquecer mas que temos a obrigação de revisitar, compartilhar e problematizar com as novas gerações.

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Resenha: Cartas Extraordinárias – Shaun Usher

/Editora Companhia das Letras/Resenhas/

Editora: Companhia das Letras
Autor: Shaun Usher
ASIN: 9788535925111
Edição: 1
Número de páginas: 368
Acabamento: Brochura
Classificação EDS: 100 de 100 pontos
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Uma maravilhosa seleção das cartas mais divertidas, inspiradoras e inesperadas, escritas por personagens notáveis. Do comovente bilhete suicida de Virginia Woolf à receita que a rainha Elizabeth II enviou ao presidente americano Eisenhower; do pedido especial que Fidel Castro, aos catorze anos, faz a Franklin D. Roosevelt à carta em que Gandhi suplica a Hitler que tenha calma; e da bela carta em que Iggy Pop dá conselhos a uma fã atormentada ao genial pedido de emprego de Leonardo da Vinci – Cartas extraordinárias é uma celebração do poder da correspondência escrita, que captura o humor, a seriedade e o brilhantismo que fazem parte da vida de todos nós. Esta coletânea de mais de 125 cartas oferece um olhar inédito sobre os eventos e as pessoas notáveis da nossa história. O livro reproduz a maior parte dos fac-símiles das missivas, com sua transcrição e uma breve contextualização, além de ser ricamente ilustrado com fotografias e documentos. A engenhosa organização de Shaun Usher cria uma experiência de leitura que proporciona muitas descobertas, e cada nova página traz uma bela surpresa para o leitor. Não apenas um deleite literário, mas também um livro-presente inesquecível. Inclui cartas de: Zelda Fitzgerald, Dostoiévski, Amelia Earhart, Charles Darwin, Albert Einstein, Elvis Presley, Dorothy Parker, John F. Kennedy, Charles Dickens, Katharine Hepburn, Mick Jagger, Steve Martin, Emily Dickinson e muito mais.

Minhas impressões

Ler Cartas Extraordinárias organizado por Shaun Usher é algo bastante singular, primeiro pelo fato de que ler correspondência alheia sempre tem um toque meio voyeur, afinal aquelas palavras não foram escritas para que você lesse e depois porque o contexto histórico em que foram escritas tomam outra conotação em nossa privilegiada posição de leitores do futuro.

Fiz a leitura de maneira aleatória, livre e sem seguir a sequência do livro procurando primeiramente as de emissários e destinatários mais conhecidos historicamente. Foi um passeio marcante e impressionante, a descoberta de uma carta leva a necessidade da leitura de “mais uma” e quando menos esperei, o livro acabou e deixou o desejo de “quero mais” que faz justiça a nota do The Sunday Times estampada na capa “O Equivalente Literário a uma Caixa de Chocolates”.

Várias missivas me emocionaram profundamente e não consegui ficar impassível diante de histórias de guerra, declarações dilacerantes de amores ímpares, sentimentos de fraternidade e de eminência histórica imbuídas numa vontade de alertar emissores e destinatários sobre o desdobramento daquela carta, “É uma cilada, Bino”.

É evidente que hoje a maior defesa da incrível quantidade de mensagens escritas e trocadas pelas pessoas através dos smartphones e emails é a rapidez com que tudo acontece, e isso é ótimo, sinal dos tempos e não tem volta, mas fico me questionando sobre a permanência das cartas escritas ou até digitadas, enviadas pelos Correios e toda aquela aura de ansiedade que as envolvia.

O livro apresenta esse saudosismo de forma muito bonita, boa parte das cartas tem a reprodução da original e a força do lido dobra porque observamos a caligrafia, o papel e a força de cada uma delas.

A escolha das 125 cartas apresentadas é fruto de pesquisa que durou quatro anos e tem muito de uma determinada cultura e visão de mundo, algumas são um tanto anônimas e com pouco significado histórico imediato, mas uma pesquisa simples pode levar ao esclarecimento e talvez nem seja algo necessário para compreensão do todo, pois além do fac-símile, temos a transcrição da carta e ainda um pequeno texto contextualizando a missiva num trabalho super caprichado e elucidativo.

Se eu tentasse lhe dar algum conselho específico, seria algo como um cego guiando outro…
E essa é realmente a questão: boiar ao sabor da corrente ou nadar para alcançar um objetivo? Essa é uma escolha que, consciente ou inconsciente, todos nós temos de fazer alguma vez na vida…
Cada pessoa é a soma total das próprias reações às várias experiências. Na medida em que as suas experiências se diversificam e se multiplicam, você se torna outro homem, e, portanto, sua perspectiva muda. É sempre assim. Toda reação é um processo de aprendizagem; toda experiência significativa altera sua perspectiva.

Da carta 021, de Hunter S. Thompson para Hume Logan respondendo ao pedido de conselho solicitado pelo amigo. Foi intitulada como “É preciso ser alguém: é preciso ter importância.

Apenas alguns poucos exemplos das minhas preferidas:
“Um grande erro de Einstein” – De Albert Einstein para o presidente dos Estados Unidos Franklin D. Roosevelt – que tece sobre realmente ser possível a utilização de urânio como nova e importante fonte de energia.

“A morte mais bela” – De Laura Huxley para Julian e Juliette Huxley – relatando a inquietação sobre sua opção de ministrar LSD Adous Huxley na tentativa de ajudar o autor, seu marido, diagnosticado com câncer na laringe e em seus últimos dias de vida.

“Não chores por mim” – De Fiódor Dostoiévski para seu irmão Mikhail Dostoiévski logo após ser salvo de um pelotão de fuzilamento e enviado para a prisão.

“Os filmes da Pixar nunca terminam, só são lançados” – de Pete Docter para Adam – o rapaz escreveu pedindo uma foto autografada e recebeu, meses depois, uma carta ilustrada e com um toque de humor e atenção que defino como absolutamente “fofo”.

“Trabalhe” – de Sol Lewitt para Eva Hesse – bela e inspiradora carta sobre a necessidade de continuar trabalhando e investindo, apesar do bloqueio de criatividade e questionamento de Hesse sobre o próprio talento.

Indico a leitura e, além disso, o livro é definitivamente um daqueles presentes para quem está em dúvida sobre o tipo de obra que o presenteado irá gostar, a edição da Companhia das Letras está caprichada, seu tamanho é diferente do usual, o volume é pesado e todo bonito. É irresistível!

Resenha: A Festa da Insignificância – Milan Kundera

/Editora Companhia das Letras/Resenhas/

Editora: Companhia das Letras
Autor: Milan Kundera
ISBN: 9788535924664
Edição: 1
Número de páginas: 136
Acabamento: Encadernado
Classificação EDS: 100 de 100 pontos

Autor de romances, volumes de contos, ensaios, uma peça de teatro e alguns livros de poemas, Milan Kundera, nascido na República Tcheca e naturalizado francês, é um dos maiores intelectuais vivos. Ficou especialmente conhecido por aquela que é considerada sua obra-prima, A insustentável leveza do ser, adaptada ao cinema por Philip Kaufman em 1988. Vencedor de inúmeros prêmios, como o Grand Prix de Littérature da Academia Francesa pelo conjunto da obra e o Prêmio da Biblioteca Nacional da França, Kundera costuma figurar entre os favoritos ao Nobel de Literatura. Seus livros já foram traduzidos para mais de trinta línguas, e há mais de quinze anos o autor tem sua obra publicada no Brasil pela Companhia das Letras.
Em 2013, o mundo editorial se surpreendeu com um novo romance de Kundera, que já não publicava obras de ficção desde o lançamento de A ignorância, em 2002. A festa da insignificância foi aclamado pela crítica e despertou enorme interesse dos leitores na França e na Itália, onde logo figurava em todas as listas de best-sellers.

Minhas Impressões

A Festa da Insignificância ganhou minha atenção pelo nome, que remete aos tempos modernos e líquidos onde tudo é muito superficial, autor, sua edição belíssima com capa dura, espaçamento convidativo e a “aparente” leveza na leitura.

A partir da primeira fase a atenção virou aquele incômodo de quando não estamos entendendo muito bem a obra. Sem sequência linear e numa atmosfera parisiense somos apresentados a Alain, Ramon, D’Ardelo, Charles e Calibã que em suas vivências cotidianas provocarão questões pertinentes ao desenvolvimento, ao relacionamento e as fraquezas humanas.

O ser humano é apenas solidão.

Encontramos situações em que o personagem carrega a dor do abandono materno chegando a estabelecer longos diálogos imaginários sobre as razões que geraram a partida da mãe, outro que em consulta médica fica surpreso com o diagnóstico negativo para um câncer e, não se sabe por quais razões, mente a um amigo dizendo que está com os dias contados e há ainda o que, sendo um ator frustrado, trabalha como garçom fingindo ser paquistanês.

A história segue através da divagação e ação dos personagens frente a questões contemporâneas como na crítica aos que tomam sorvete, correm e lotam a fila de uma exposição de Chagal com a mesma naturalidade, quase que num exibicionismo e questiona se, de fato, gostam do artista ou estão dispostos a qualquer coisa para matar o tempo;

O tempo corre. Graças a ele, em primeiro lugar estamos vivos, o que quer dizer: acusados e julgados. Depois, morremos, e continuamos ainda alguns anos com aqueles que nos conheceram, mas não demora a ocorrer outra mudança: os mortos se tornam velhos mortos, ninguém se lembra mais deles e eles desaparecem no nada; apenas alguns, raríssimos, deixam seus nomes nas memórias, mas privados de todo testemunho autêntico, de toda lembrança real, transformam-se em marionetes…

Alain, um dos personagens, escancara a despersonalização ao tecer longa reflexão sobre a moda em que as moças “mostram o umbigo” , pondera sobre o encanto da sedução dos seios, das coxas, da bunda e a particularidade dessa orientação erótica confrontando com o objeto de sedução centrado no meio do corpo;

Há ainda uma forte e calorosa discussão sobre Stalin, uma festa estranha, situações em suspenso e toda a sorte de possibilidade de reflexão frente aos acontecimentos.

Nós compreendemos há muito tempo que não era possível mudar este mundo, nem remodelá-lo, nem impedir sua infeliz trajetória para a frente. Havia uma única resistência possível: não levá-lo a sério.

Milan Kundera e seus títulos incríveis sempre me interessaram, mas é certo que A Festa da Insignificância deixou dúvida sobre o entendimento da obra e autor, mergulhei e fiquei perdida diante de tantas reflexões suscitadas numa época histórica em que o importante, o que realmente tem significado, fica perdido nas entrelinhas obscuras.