Resenha: Memórias Inventadas – As Infâncias – Manoel de Barros

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Editora: Planeta do Brasil
Autor: Manoel de Barros
ASIN: 9788576654964
Edição: 1
Número de páginas: 192
Acabamento: Brochura
Classificação EDS: 100 de 100 pontos
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O poeta Manoel de Barros um dia pensou em publicar três livros. Um que tratasse da infância, outro da mocidade e mais um sobre a velhice. Depois que escreveu os primeiros poemas e os publicou, no entanto, percebeu que não seria capas de tratar dos outros dois assuntos. E ele explicou a razão com palavras muito simples e poéticas, como é seu costume. Disse: “Eu só tive infância”. Memórias Inventadas – As infâncias de Manoel de Barros reúne os versos das três infâncias do autor. O estilo único do poeta se completa com as iluminuras de Martha Barros, sua filha e pintora. O resultado é um livro que se lê e relê sempre com prazer e encantamento.

Minhas impressões

“Memórias Inventadas – As Infâncias de Manoel de Barros” é um livro absolutamente poético e sensível. Uma obra que, se deixarmos, nos transportará direto para os rincões de nossa mais tenra infância, aquela inocência em que o tudo e o nada fazem muito sentido, um tempo em que o mundo está para ser descoberto e a natureza, mesmo para os que moram na cidade, muito mais próxima de nós numa espécie de simbiose.

As Infâncias, reais ou inventadas, do autor foram dividas em três partes: “A Primeira Infância”, “A Segunda Infância” e a “Terceira Infância”, na ideia do escritor de rompimento com a possibilidade de escrever sobre a meninice, a mocidade e a velhice e também numa bela apresentação através de um passeio pelas diversas fases do primeiro período da vida.

Eu sinto mesmo hoje que a estrada é carente de pessoas e de bichos. Emas passavam sempre por ela esvoaçantes. Bando de caititus a atravessavam para ver o rio do outro lado. Eu estou imaginando que a estrada pensa que eu também sou como ela: uma coisa bem esquecida. Pode ser. Nem cachorro passa mais por nós. Mas eu ensino para ela como se deve comportar na solidão. Eu falo: deixe, deixe meu amor, tudo vai acabar. Numa boa: a gente vai desaparecendo igual quando Carlitos vai desaparecendo no fim de uma estrada…Deixe, deixe, meu amor.

Os capítulos possuem títulos e histórias curiosas, espantosas e engaçadas. São intitulados como, entre outros, “O lavador de Pedra”, “Latas”, “Bocó”, “Pelada de Barranco” e “O Menino que ganhou um rio” com a descrição dos mais diversos casos e observações sobre espanto e admiração diante das coisas mais simples da vida.

Da obra de Manoel de Barros, gosto em especial da poesia, da doçura e do encantamento a partir da descoberta de um mundo que funciona numa outra lógica, numa perspectiva do sensível, do valor não monetário e do surpreendente da vida e da mãe natureza.

Porque eu havia lido em algum lugar que as palavras eram conchas de clamores antigos. Eu queria ir atrás dos clamores antigos que estariam guardados dentro das palavras.

O livro, ganhador do prêmio APCA de Literatura em 2008, demonstra nuances engraçadas da etapa mais importante da vida humana e carrega a força do uso da palavra pelo autor, aquele significado de um termo que nem sempre é o usual e que precisamos desconstruir para conseguir fazer a leitura. Em “O apanhador de desperdícios” vai dizer “Tenho em mim esse atraso de nascença” e “Só uso a palavra para compor meus silêncios”.

A leitura avança e encontramos diversas situações que remontam a nossa meninice, são contadas as brincadeiras com os amigos, descoberta de algumas características vegetais e animais, vivências escolares e o cotidiano familiar ficando impossível não acessarmos nossas memórias ou lembranças de nossos avós.

Minha avó, ela era transgressora. No propósito ela me disse que até as mariposas gostavam de roçar nas obras verdes. Entendi que as obras verdes seriam aquelas feitas no dia. Daí que também a vó me ensinou a não desprezar as coisas desprezíveis…e nem os seres desprezados.

As ilustrações chamadas de “iluminuras”, feitas pela filha do autor são um capítulo muito importante na composição da obra. Martha Barros exprime suas sutilezas, cores e harmonias resultando em um tom ainda mais belo e lúdico ao livro.

Há um ano, depois de uma bela caminhada, Manoel de Barros foi para outro plano e o que ficou foi a marca de sua existência contada em delicada obra que de tão poética e singular vale a pena ser visitada.