Resenha: Livre – Cheryl Strayed

/Editora Objetiva/Resenhas/

Editora: Objetiva
Autor: Cheryl Strayed
ISBN: 9788539006458
Edição: 1
Número de páginas: 376
Acabamento: Brochura
Classificação EDS:  100 de 100 pontos

Aos 22 anos, Cheryl Strayed achou que tivesse perdido tudo. Após a repentina morte da mãe, a família se distanciou e seu casamento desmoronou. Quatro anos depois, aos 26 anos, sem nada a perder, tomou a decisão mais impulsiva da vida: caminhar 1.770 quilômetros da chamada Pacific Crest Trail (PCT) – trilha que atravessa a costa oeste dos Estados Unidos – sem qualquer companhia. Cheryl não tinha experiência em caminhadas de longa distância e a trilha era bem mais que uma linha num mapa. “Minha caminhada solitária de três meses pela costa oeste teve muitos começos. Mas, na realidade, minha caminhada começou antes de eu sequer imaginar empreendê-la, mais precisamente quatro anos, sete meses e três dias antes, quando estava em um pequeno quarto da Clínica Mayo, em Rochester, Minnesota, e soube que minha mãe ia morrer”, escreve a autora.

Minhas Impressões

A curiosidade para ler “Livre” surgiu a partir de uma fala solta da atriz Reese Witherspoon, interprete da personagem principal na adaptação da obra para o cinema, onde ponderava sobre a dificuldade imensa durante as filmagens, pensei que se as gravações foram difíceis, imagine o percurso real de incríveis 1770 km percorridos ao longo de três meses da Pacific Crest Trail (PCT).

O livro apresenta a fase em que, sem elaborar o luto pela morte precoce de sua mãe, a autora se entrega a um processo de autodestruição que envolve traição, sexo com os mais diversos estranhos, abandono da faculdade, distanciamento da família, divórcio, aborto, uso abusivo de drogas e a trilha como possibilidade de redenção.

Seis meses antes da caminhada Cheryl Strayed compra o guia da PCT e seu objetivo passa a ser a aventura. Faz estudos, leituras, economias, compras e toma as providencias que considerava ideais para garantir o percurso.

Após titubeio inicial daquela força que impede as grandes mudanças, a caminhada vai acontecendo e os fantasmas vão sendo apresentados e enfrentados alternadamente em uma retrospectivas sem ordem cronológica exata e que acaba facilitando a vida do leitor como companheiro silencioso do trajeto.

Os obstáculos e surpresas vão se alternando, por vezes foram resultado da falta de experiência e melhor planejamento da trilha, pelo imponderável dentro da floresta, encontro com ursos, cobras, raposas, homens com intenção duvidosa, botas que rolam desfiladeiro abaixo e o rigor do clima. Foram tantos que durante a leitura, em vários momentos, esqueci o desfecho de sucesso e soltei interjeições do tipo “agora ela desiste”, “não dá mais” e “putz…ferrou”.

Tinha a ver apenas com a sensação de estar na natureza. Com o que significava caminhar quilômetros por nenhuma outra razão a não ser observar a concentração de árvores e os prados, as montanhas, os desertos e riachos, as rochas, os rios e campos, e cada amanhecer e entardecer. A experiência era potente e fundamental. A mim parecia que a sensação do ser humano na natureza sempre tinha sido essa.

As pessoas com quem encontra são determinantes para revigorar sua fé, exercitar a humildade, a coragem, o companheirismo, o sexismo e marcam a jornada da heroína de maneira simbólica e contribuindo em seu processo de autoconhecimento.

Por fim, observamos que a solidão do período, dos encontros e desencontros e cada uma das intempéries, foram necessários para a composição do mosaico do reencontro de si e exorcismo do que se passou e possibilidade de assumir e trilhar o caminho da própria vida.

A leitura dessa obra suscitou a vontade de conversar com alguém que passou por essa experiência. Por isso segue uma entrevista com a Jaque. Contando rapidamente, ela é uma colega do André e como ele diz é uma pessoa excepcional que tem viajado o mundo. Se quiser segui-la o site dela é www.followjaque.com

Entrevista

Teve algum gatilho, alguma coisa que fez você querer mudar de país?
Sim… A primeira vez que decidi deixar o Brasil, foi quando percebi que por não falar outro idioma, não poderia ter um dos trabalhos que eu mais desejava, mas depois, ao organizar tudo e decidir pra onde ir, muitas coisas mudaram e acabei alterando algumas prioridades.

Precisou de muita coragem pra encarar o desconhecido?
Sempre meti a cara e fiz tudo que me deu na telha… então pra mim, foi uma decisão como qualquer outra da minha vida.

Qual o primeiro país que você foi e qual sensação que você teve ao chegar lá?
Portugal. Foi uma emoção muito grande chegar ao país que nos colonizou, andar pelas ruas do velho mundo, foi a sensação de um sonho se realizando.

A diferença foi muito grande do país natal e como lida com os choques culturais?
Não muito, se bem que apesar da língua ser Português, as diferenças são muitas. O sotaque, palavras, significados. Já estou tão acostumada com as diferenças, que não tenho um choque assim tao grande. Pelo menos até agora. Creio que mais adiante, com outros idiomas e continentes, aí sim posso te dar uma resposta melhor sobre isso.

Depois do primeiro país você já definiu o que ia fazer ou não tem roteiro?
Viajei por 3 meses na Europa e conheci 7 países, depois voltei pro Brasil. Tentei algumas oportunidades, mas a vontade de estar em lugares diferentes já me sufocava, então decidi ir pro Equador, por terra, parando em vários lugares no caminho, para economizar, pois sai do país com 600 doletas que acabaram no Peru. Mais precisamente em Cusco, e lá, consegui meu primeiro emprego, sem saber falar o idioma, e pensei: se posso fazer isso aqui, posso fazer em qualquer lugar do mundo. Vou dar a volta ao mundo!
O plano atual é:
Estou na Colômbia agora, em Medellin, trabalhando em um restaurante e vendendo luminárias em origami pra juntar dinheiro e ir para o México. De lá Cuba, Jamaica e alguma outra ilha maravilhosa do Caribe. Voltar ao México e ir baixando por terra até o Panamá. Do Panamá, buscar um barco para ir trabalhando a bordo até Fiji. Conhecer todas essas ilhas que podem sumir do mapa em alguns séculos. Conhecer toda Oceania, subir todo o sudeste asiático, conhecer as praias mais paradisíacas do mundo, toda Ásia. Sair pela Rússia para a Europa, passar por todos os países, inclusive Islândia, e por último, descer para Africa e fazer trabalhos voluntários. Vamos ver como se leva, voltar ao Brasil, e decidir em que lugar maravilhoso do mundo vou querer viver o resto da minha vida!

Qual a maior dificuldade em ficar mudando de país?
Não conhecer nada em absoluto, não saber o que vem pela frente. Buscar trabalho, nada é fácil em outro país que não é o seu, mas felizmente, em todo canto aparecem pessoas maravilhosas, que te ajudam a não ser assim tão duro.

Queria saber sobre a sensação de pertencimento a lugares que não necessariamente são os de origem.
Sempre fui muito bem recebida em todos os lugares onde estive. O brasileiro tem uma boa reputação em todo lado. Claro, que até você se acostumar com o lugar, saber o que esta acontecendo, demora um pouco, mas não é nada que você fique se sentindo um peixe fora d’água.

Qual o país que você mais gostou até o momento?
Não tenho como escolher um país, cada um tem uma coisa super especial, cidades ou historias lindas. Mas alguns dos meus favoritos são Portugal e Croácia.

Você se arrependeu em algum momento?
Jamais. Posso dizer que foi a melhor decisão que eu tomei na minha vida. Sou apaixonada pela minha vida, pelas coisas que vejo, os amigos que faço, e sei que sou completamente abençoada para seguir adiante com a aventura da minha vida.

Te enriqueceu pessoal e profissionalmente?
Com certeza. Profissionalmente você desenvolve habilidades que são extremamente importantes para o mercado corporativo. Aprendi dois idiomas e posso conversar fluentemente os dois em apenas um ano.
Pessoalmente, são tantas coisas que aprendi e aprendo todos os dias. É a humildade para com as pessoas. A viver com pouco e muitas vezes com quase nada. É ver que a bondade ainda existe, em muitas pessoas, e que o mundo não está perdido como a TV e muitas pessoas pensam. É admirar as coisas pequenas, cada amanhecer e entardecer e as cores. Dar valor não as coisas materiais, mas nas coisas que a mãe terra nos proporciona. Curtir uma cidade grande, mas querer ir cada vez mais longe.

Tem alguma dica pra quem tem vontade e que não sabe como começar?
Não existe fórmula mágica, ou receita de bolo. Cada pessoa vai viver e ver as coisas de uma forma diferente, a única coisa necessária para fazer qualquer coisa que seja, é ATITUDE.

Cite um livro que goste
Todos do Harlan Coben, Dan Brown… Confesso que agora viajando já não leio mas tanto, mas que sempre tento, e atualmente meu livro é Travessuras de la niña mala de Mario Vargas Llosa, meu segundo em Espanhol.

Resenha: Misery – Stephen King

/Editora Objetiva/Resenhas/

Editora: Objetiva
Autor: Stephen King
ISBN: 9788581052144
Edição: 1
Número de páginas: 326
Acabamento: Brochura
Classificação EDS:  100 de 100 pontos

Paul Sheldon descobriu três coisas quase simultaneamente, uns dez dias após emergir da nuvem escura. A primeira foi que Annie Wilkes tinha bastante analgésico. A segunda, que ela era viciada em analgésicos. A terceira foi que Annie Wilkes era perigosamente louca. Paul Sheldon é um famoso escritor reconhecido pela série de best-sellers protagonizados por Misery Chastain. No dia em que termina de escrever um novo manuscrito, decide sair para comemorar, apesar da forte nevasca. Após derrapar e sofrer um grave acidente de carro, Paul é resgatado pela enfermeira aposentada Annie Wilkes, que surge em seu caminho.

Minhas Impressões

O normal de um livro quando você começa a ler é ter uma ambientação, um histórico rápido dos personagens e até mesmo uma história secundária para dar uma “enrolada” na obra, deixando a parte emocionante mais pro final.

Eu já sabia por cima qual era o assunto do livro (sim, eu não havia lido este nem assistido o filme), mas fui pego de surpresa ao ver que já começava no meio do pagode =)

Paul Sheldon, escritor preferido de Anne Wilkes, sofre um acidente em meio a neve e tem a “sorte” de ser encontrado pela fã número um dele. Até aí tudo bem, pois ele não se lembrava muito bem como fora parar ali, porém desde o início já ficava a dúvida de quanto tempo ele passara naquela cama. Anne é extremamente hospitaleira e começou a lhe contar como o tirou do carro e como vem cuidando dele.

A coisa começa a ficar ruim quando Paul passa a duvidar do motivo de estar sendo mantido numa cama em uma casa ao invés de ser levado para o hospital, além claro, do episódio em que Anne surta ficando claro que essa mulher tinha um parafuso solto e isso não era nada bom.

A resposta de Bernstein lhe parecera frívola, cruel e incompreensível: Muitos deles tinham pianos. Nós judeus gostamos muito de pianos. Quando se tem um piano, é difícil pensar em mudar.

Viciado em codeína (não, esse remédio não existe), Paul passa a depender de Anne para alimentar seu vício e fazer a dor sumir. A dependência é tão grande no início que ele aceita fazer coisas extremamente humilhantes somente para satisfazer o desejo de Anne e conseguir mais dois comprimidos.

Evitando contar muita coisa, e olha que eu gostaria de discorrer muito sobre essa história… Anne obriga Paul a escrever um novo livro somente para ela. Ninguém mais teria um livro sobre a Misery (personagem fictício criado por Paul Sheldon, daí o nome da obra em inglês) e não havia a mínima possibilidade de recusa.

A história é extremamente angustiante. É incrível como King conseguiu manter um livro com apenas dois personagens numa casa, em que a maior parte da história se passa dentro do quarto de hospedes, e ainda assim deixá-lo tão atrativo. Quando comentei sobre o fato de o livro já começar no meio do pagode, foi justamente por achar que iniciar já revelando boa parte do enredo, poderia torná-lo enfadonho, mas graças a Deus não foi o caso.

Em alguns momentos eu senti a dor do Paul, principalmente na hora em que ele leva uma porrada no joelho (desculpe, tive que contar essa parte). Em outros passei raiva pelo fato de Anne sempre estar um passo à frente e sofri de ansiedade pelo medo que Paul demonstrava quando estava fazendo alguma coisa escondida.

Estou mais perto da morte do que jamais estive na vida, pensou ele, porque ela realmente fala sério. Essa puta fala sério.

Se vocês acompanham minhas resenhas dos livros do King, sabem que sou extremamente fã do mesmo (não é à toa que tenho uma tatuagem da Torre Negra), fiquei muito feliz em ver o quanto ele ainda pode me surpreender em suas obras.

Recomendo efusivamente a leitura deste, principalmente se você tem vontade ou se escreve alguma coisa. Pela vida do Paul Sheldon, você consegue vislumbrar como King se organiza pra escrever um livro. Além de perceber também que não é necessária uma trama gigantesca com cem personagens (e cada um morrendo no final de um capítulo dos mil livros da série –` ) para tornar o livro interessante.

Caso você não tenha lido, nem assistido o filme, como eu, faça-o e garanto que não se arrependerá.

Comentando rapidamente sobre o filme. Como sempre existem algumas mudanças do livro pro filme, porém eu chutaria que o filme foi uns 90% fiel e não deixou nada a desejar. Não é à toa que a atriz que interpretou Anne Wilkes ganhou o Oscar daquele ano. Aqueles olhos vazios foram sensacionais =)

Ainda era bom ter terminado. Era sempre bom ter terminado. Bom ter produzido, ter causado a existência de alguma coisa.

Até a próxima.

Resenha: O clube do livro do fim da vida – Will Schwalbe

/Editora Objetiva/Resenhas/

Editora: Editora Objetiva
Autor: Will Schwalbe
ISBN: 9788539004997
Edição: 1
Número de páginas: 296
Acabamento: Brochura
Compre: Amazon
Classificação EDS:  100 de 100 pontos

“O que você está lendo?” Esta é a pergunta que Will Schwalbe faz para a mãe, Mary Anne, na sala de espera do instituto do câncer Memorial Sloan-Kettering. Toda semana, durante dois anos, Will acompanha a mãe às sessões de quimioterapia. Nesses encontros, conversam um pouco sobre tudo: a vida e os livros que estão lendo. Will e Mary Anne terão conversas tanto abrangentes quanto extremamente pessoais, estimuladas por um conjunto eclético de livros e uma paixão compartilhada pela leitura. A lista vai do clássico ao popular, da poesia ao mistério, do fantástico ao espiritual. Eles compartilham suas esperanças e preocupações — e redescobrem suas vidas — através dos livros prediletos. Mãe e filho se redescobrem, falam de fé e coragem, de família e gratidão, além de serem constantemente lembrados do poder que os livros têm de reconfortar, surpreender, ensinar e dizer o que é necessário fazer com a vida e com o mundo. Uma alegre e bem-humorada celebração da vida, ‘O clube do livro do fim da vida’ é uma história comovente e uma lembrança de que a leitura também é um ato de liberdade diante da dor e do medo da morte. Como aponta o autor, “ler não é o oposto de fazer, é o oposto de morrer”.

Minhas impressões

A primeira parte do título foi um chamado, gosto da ideia romântica dos clubes de leitura famosos de outrora enquanto que a segunda parte me pareceu um tanto deprimente, mas o que me prendeu foi a orelha repetindo a pergunta mágica que faço a tod@s que conheço e que sabidamente apaixonados pela leitura: “O que você está lendo?”

Will Schwalbe faz uma bela homenagem contando os dois últimos anos da vida de sua mãe partindo do que os dois silenciosamente estabeleceram como um Clube da Leitura. As obras são referências para um estreitamento de laços e discussões do que foi dito e silenciado, sutilezas sobre diferentes pontos de vistas, abordagens religiosas, personagens que
enfrentaram seus medos e as mais diversas possibilidades de pensar a vida a partir da Literatura.

A biografia de Mary Anne Schwalbe é a de uma mulher forte, guerreira, batalhadora, generosa e de uma energia e disposição, mesmo nos momentos mais agressivos do câncer, ímpar. Foi educadora, diretora de admissões de Harvard e Radicliffe, viajou o mundo em ações voluntárias diversas, fundadora da Comissão Feminina de Refugiados e durante a doença continuou trabalhando arduamente para a implantação de uma biblioteca nômade no Afeganistão.

Em momento algum existe uma comiseração piegas, o que ela lamenta é não ter tempo e saúde para fazer mais e sua força fica evidente na ação matriarcal que permite a continuidade da rotina, planos e projetos da família. Os encontros do clube acontecem ao longo do intervalo de tempo em que são realizados os procedimentos de acompanhamento da paciente de 73 anos diagnosticada com câncer de pâncreas em estágio avançado.

Inicialmente considerei que fosse algo maior e não apenas um clube com dois integrantes, mas pensar que a Literatura pode subverter os momentos infindáveis de um processo quimioterápico, trazendo qualidade ainda maior ao vínculo afetivo de mãe e filho permitiu a continuidade da minha leitura.

Sempre que estávamos juntos e ela chegava a um trecho de um livro de que gostava, não lia para mim – me entregava o livro inteiro, com o dedo indicando uma linha e instruções de onde eu devia começar e onde parar. Como sempre, ela só levantou o dedo quando tinha certeza de que meus olhos haviam encontrado a parte certa. Era como passar um bastão numa corrida de revezamento.

A edição apresenta um apêndice com todas as obras, fragmentos, poemas e histórias citadas no livro. São referências da Literatura Universal e, em especial, da Americana que podem inspirar os leitores nos caminhos percorridos pelo clube.

A narrativa, apesar de bela, é um pouco cansativa e arrastada e todo o fascínio e emoção ficaram no tocante ao encantamento pela personalidade de Mary Anne e no poder salvador da Literatura.

Há tanto para ler… e viver!

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