Resenha: Ultraje a Rigor – Nós vamos invadir sua praia – Andréa Ascenção

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livro-nos-vamos-invadir-sua-praia-estante-dos-sonhosEditora: Belas Letras
Autor: Andréa Ascenção
ISBN: 9788560174744
Edição: 1
Número de páginas: 352
Acabamento: Brochura
Classificação EDS:  100 de 100 pontos

O Ultraje a Rigor tirou sarro de tudo e de todos, sem nunca deixar de rir de si mesmo, desmontando clichês com sua música irreverente, inteligente e descomprometida. Em busca da história das trilhas sonoras que fizeram a cabeça de pelo menos três gerações, a jornalista Andréa Ascenção revela passagens tão esquisitas como hilariantes, contadas pelos próprios protagonistas. Nós vamos invadir sua praia mostra como uma banda de letras ultrajantes ajudou – “sem firulas” – a lapidar, a partir dos anos 80, o rosto do rock brasileiro.

Com muito orgulho, minha primeira entrevista com uma autora. Descobri que a Andréa Ascenção trabalha na mesma empresa que eu e claro que eu fui incomoda-la =). Segue entrevista na íntegra:

Como surgiu a ideia/inspiração para criar um livro da banda?
Em 2006 eu tive uma matéria na faculdade de jornalismo chamada livro-reportagem. Me encantei com a possibilidade de escrever um livro e no ano seguinte comecei a pesquisar assuntos de que gostava e que poderiam virar um livro-reportagem. Logo percebi que o Ultraje ainda não tinha uma biografia. A maioria das outras bandas, digamos similares, já tinha. Como eu sempre curti o som deles, tanto pelas letras, que na minha opnião têm argumentação impecável, quanto pela sonoridade rápida, simples e dançante tinha motivos de sobra para mergulhar nessa história. Outro ponto muito característico do Ultraje é a irreverência, e como diria o Pena Schmidt: “eles se valem do solvente universal, o humor”. O mais bacana foi descobrir a cada show, a cada entrevista que realizava com eles que o bom humor não estava apenas nas composições, estava presente o tempo todo porque faz parte deles, enquanto pessoas. É claro que cada músico tem suas particularidades, mas quando estão juntos o riso está sempre presente e de uma forma muito espontanea. Quer dizer, a cada momento que um deles topava fazer as entrevistas eu ia construindo a oportunidade de mostrar e registrar uma história de gente de carne e osso, não só de ídolos que fizeram e fazem parte da cultura brasileira.

É claro que você já era fã, qual foi a sensação de ter nas mãos um livro publicado da banda?
É curioso isso, defina o conceito de fã. Qual seria? Eu curto Ultraje desde a adolescência, mas nunca fui do tipo que frequenta show, tira foto e pede autógrafo, etc… É claro que a partir do momento em que me propus a escrever a biografia deles meu objetivo foi de me aproximar o máximo possível, mas como jornalista, não como fã. E aí há dois problemas que conflitam o tempo todo. Eu precisava chegar perto o suficiente para conseguir enxergar em profundidade e compreender quem é essa banda, mas ao mesmo tempo eu precisava me distanciar para não ultrapassar uma barreira jornalística, pois isso certamente faria com que eu resvalace e escrevesse com uma visão comprometida. Estamos falando de uma biografia, quer dizer, eu não conheço nenhum biógrafo que não tenha admiração ou ao menos alguma empatia forte suficiente pelo tema que escolhe abordar. Esse é o ponto de partida, mas não se pode perder o foco e tudo isso passou pela minha cabeça quando eu abri a caixa que a editora mandou com os primeiros exemplares. Daí então as pessoas começaram a me chamar de biógrafa do Ultraje a Rigor, eu não tinha me dado conta do “título”..rsrs.. e isso é uma honra e um grande prazer. Agora o mais louco disso tudo foi ser entrevistada pelo Danilo Gentili, no Agora é Tarde. Estar lá ao lado da banda depois de tanto encher a paciência deles e saber que existe esse respeito e carinho mútuos não tem preço.

Qual foi a recepção do pessoal da banda quando souberam do livro?
Quando eu comecei a entrevistá-los expliquei que a intenção era escrever um livro, mas como se trata de um projeto grande, que envolve muitos entrevistados, que eu não sabia se conseguiria abordar, não falamos de publicação nesse primeiro momento. Durante o processo percebi que conversavam entre eles sobre o livro. Alguns achavam que eu perguntava muita coisa, e eu só estava começando… rs, outros achavam que eu ia fazer um longo pingue-pongue (formato de entrevista pergunta e resposta, como é feito nas páginas amarelas da Veja) e quando eu expliquei que era uma narrativa acho que ficaram na expectativa, será que vai dar certo? Bom, nem eu sabia, mas eu ia tentar. Uma das minhas características mais forte é ser persistente, então com tempo acho que eles foram se abrindo mais, se envolvendo com o projeto e mostraram-se solícitos. Quando o “projeto piloto” ficou pronto foi muito gratificante. Todos gostaram muito e se surpreenderam. Daí passou mais ou menos 3 anos até que eu assinei contrato com a editora Belas Letras. Quando o livro tal como é vendido hoje saiu acho que todos estavam na expectativa para ver o resultado final, colorido, super recheado de fotos e atualizado.

Pretende escrever mais algum livro? Não somente relacionado ao Ultraje.
Pretendo sim. Estou me especializando em jornalismo literário e ano que vem devo ter já boa parte do próximo livro. Mas não há nada definido por enquanto.

Minhas impressões

Quando comecei a pensar na promoção do dia do Rock, comecei a procurar um livro sobre, e cheguei no livro do Ultraje. Por mais que eu fosse criança quando eles estavam no topo das paradas, eu já os conhecia timidamente. Curioso, comecei a ler o livro.

Iniciei a leitura achando que seria somente uma biografia da banda, mas teve muito mais. Pelo fato do Ultraje ser uma das primeiras bandas de rock nacional, a história deles se mistura com a história do próprio rock brasileiro. Isso já torna o livro uma obrigatoriedade para quem gosta de rock. Conforme você vai se aprofundando no livro e parando para analisar as letras, você percebe o QI alto do Roger agindo na composição. O humor das composições, torna algumas críticas mais ácidas ainda, vou dar um exemplo da música Teimoso:

– Não implique por eu ser teimoso/ já que a minha teimosia não é como a do burro/ que empaca e faz valer sua vontade usando força bruta/ e é teimoso justamente porque é burro!
– Não, apesar de eu também ser teimoso/ não sou um animal de rabo e de orelha comprida/ e quando a coisa tá difícil é que eu sou mais teimoso/ porque eu quero fazer tudo o que eu quiser da vida
– Não, a minha teimosia é diferente/ a minha teimosia é o que me faz seguir em frente/ é aquela teimosia típica de brasileiro/ que insiste em continuar vivendo sem ganhar dinheiro
– Por isso/ não critique por eu ser teimoso/ já que a minha teimosia não é como a do burro/ que vai continuar empacando e atravancando o caminho/ e nunca vai evoluir porque vai ser sempre burro!

Como citei acima, a autora relaciona diversas bandas que surgiram na mesma época, dando força ao movimento punk rock e new wave, formando uma cadeia de bandas que influenciaram diversas “mentes” na época. Dentre elas Titãs do lê-lê (sim, era assim que se chamavam), Paralamas do Sucesso, Capital Inicial e diversas outras. É interessante a coletividade que havia entre as bandas logo nesse início, onde um incentivava o outro, ou ajudava a divulgar a banda nas poucas estações de rádio e casas de show que existiam na época. Outro detalhe importante é a participação do jornalista e compositor Nelson Motta nesse movimento, abrindo espaço para estes artistas na primeira casa de show dedicada a este estilo de música, a Paulicéia Desvairada.

A forma em que a história é apresentada no livro é incrível. É perceptível que a forma que os fatos foram captados, foi através de entrevistas no estilo pergunta-resposta, mas o trabalho da autora em organizar essas respostas encaixando na história, torna o livro fácil de ler. Algumas partes do livro são muito engraçadas, daquele tipo que você fica rindo no ônibus sozinho e povo olhando pra sua cara (aconteceu comigo rs), quando eles contam as histórias da banda.

“Certa vez Andria volta para São paulo a fim de ensaiar com Taffo e convence Leôspa a viajar de avião com ele (Leôspa, assim como o Roger não gostam de viajar de avião, somente quando é extremamente necessário).
Quando chegam no aeroporto de Congonhas, a chuva anuncia que o tempo fechará… São seis horas da tarde e já estava como se fosse meia noite… (Decolaram)De repente o avião começa a chacoalhar. Leôspa imediatamente pede uísque a Andria, que já não tem mais a bebida.
– Eu esqueci o uísque… aí ele ficou puto.
A turbulência continua e o pânico aumenta com um raio que quase atinge o avião…
…Leôspa começa a suar, fica inquieto e quer descer.
– Eu preciso de alguma coisa, eu quero um anestésico, qualquer coisa…
Mesmo assustado, Andria tem um acesso de riso ao olhar para o amigo, que pensa que o avião pode cair a qualquer momento.”

Por mais que o livro tenha sido escrito por uma fã, o livro é imparcial, apresentando a história da banda e tudo que influenciou a mesma, sem deixar aquela insistência de fã, que você deve adorar a banda. É realmente como comentei acima; eu já os conhecia e conhecia mais músicas do que eu imaginava. Depois do livro passei a admira-los mais, principalmente o Roger, pela integridade de não mudar de opinião conforme a pressão da mídia ou de outrem.

Enfim, o livro é uma biografia da banda muito bem escrita, sem aquela “chatice” de datas e horários e sim passando as experiências que definiram a banda. Mais um ponto que me fez gostar do livro, foi o fato de a autora se preocupar em contar o que aconteceu com cada integrante pós banda, além de colocar numa linha do tempo as formações que a banda teve (pra mim que sou ótimo de memória, só que não, isso foi ótimo). Recomendo o livro, se você curte rock recomendo mais ainda pra entender e valorizar mais nosso rock nacional. Se você tem curiosidade sobre a banda também recomendo!

Até a próxima =)