Resenha: A guerra não tem rosto de mulher – Svetlana Aleksiévitch

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Editora: Companhia das Letras
Autor: Svetlana Aleksiévitch
ISBN: 9788535927436
Edição: 1
Número de páginas: 392
Acabamento: Brochura
Classificação EDS: 100 de 100 pontos
Compre: Amazon

A história das guerras costuma ser contada sob o ponto de vista masculino: soldados e generais, algozes e libertadores. Trata-se, porém, de um equívoco e de uma injustiça. Se em muitos conflitos as mulheres ficaram na retaguarda, em outros estiveram na linha de frente.
É esse capítulo de bravura feminina que Svetlana Aleksiévitch reconstrói neste livro absolutamente apaixonante e forte. Quase um milhão de mulheres lutaram no Exército Vermelho durante a Segunda Guerra Mundial, mas a sua história nunca foi contada. Svetlana Aleksiévitch deixa que as vozes dessas mulheres ressoem de forma angustiante e arrebatadora, em memórias que evocam frio, fome, violência sexual e a sombra onipresente da morte.

Minhas impressões

Realizar a leitura de “A Guerra não tem nome de Mulher” é algo muito impactante e perturbador! Demorei para terminar o processo, tamanhas foram as inúmeras pausas para o choro, a raiva, a indignação e a reflexão sobre “como elas conseguiram”? Como qualquer um consegue?

Svetlana Aleksiévitch, ganhadora do prêmio Nobel de literatura em 2015, através de um misto de literatura e jornalismo desvela e apresenta memórias de um tempo de guerra, um período que precisa ser trazido à tona para que não seja repetido. Sempre insisto na questão da espiral da História, mas precisamos debater, colocar sobre a mesa e conversar sem medo para que possamos aprender a superar, reinventar.

Eu me lembro dos sons da guerra. Ao seu redor tudo troveja, retine e treme por causa do fogo…A alma de uma pessoa envelhece durante a guerra. Depois da guerra, nunca mais fui jovem…Isso é o mais importante. É o que eu acho…

O livro é composto por relatos de mulheres soviéticas que participaram da guerra sendo convocadas, voluntárias ou até mesmo indo para os campos de batalha de maneira inicialmente clandestina. Foram realizadas 200 entrevistas, abrangendo todo o território da Rússia, em que a maioria acessou suas memórias de forma bastante dolorosa, tirando do silêncio um período absolutamente surreal e diferente de tudo o mais em suas vidas.

São emocionantes as memórias de perda da inocência, dos cortes abruptos de tranças e da substituição dos vestidos de seda pela farda militar. Impressionantes histórias de superação e luta diante de todo o horror da guerra em suas grandes questões; bombardeios, sangue, corpos e também na ausência da sutileza de um lenço, de um aroma ou de uma bota no tamanho do próprio pé.

Em comum na maioria dos relatos está a vontade de ir para a batalha, muitas meninas que estavam no início da adolescência e sem dimensão real de um combate ou da guerra travada alistavam-se prontamente imbuídas de um ideal grandioso de defesa e patriotismo.

Talvez as constantes guerras e revoluções tenham nos desacostumado a manter as ligações com o passado, a tecer cuidadosamente a teia de aranha da família. A sentir orgulho. Nos apressamos em esquecer, em apagar os rastros, porque os testemunhos preservados podiam se transformar em provas, e várias vezes nos custavam a vida. Ninguém conhece a própria história para além das avós e dos avôs, e não se procuram as raízes. Estávamos fazendo história, mas vivíamos o dia. Tínhamos memória curta.

As histórias e as memórias são colocadas a partir do olhar sensível de cada uma das mulheres, como uma viagem no tempo, enfoque diferente e observação do quanto a experiência mudou por completo a continuidade de suas vidas, como exemplo as soldadas que eram referência em seus batalhões, que foram condecoradas e não eram reconhecidas no retorno à vida comum. Os soldados não as queriam porque os faziam lembrar da guerra e as demais mulheres não se aproximavam porque elas eram potenciais rivais em seus relacionamentos. Tiveram dificuldades na colocação no ambiente de trabalho, nas famílias e no recebimento do soldo pós-guerra ou em momentos de celebração cívica.

É muito difícil apontar um ou outro relato como mais marcante, as histórias se sobrepõem de maneira abrupta e ficamos imaginando aquela senhorinha abrindo seu baú para contar aquilo que até então, ninguém sabia que tinha vivido. Interessante a observação de que a História é contata do ponto de vista macro, mas ela é construída no intrincado desdobramento de cada ínfimo passo dado.

Eu ainda penso em uma coisa…Escute só. Quanto tempo durou a guerra? Quatro anos. É muito tempo…Não me lembro nem dos pássaros, nem das cores. Claro, isso tudo existia, mas não me lembro. É, pois é. Estranho, não? Nela, tudo é negro. Só o sangue tem outra cor, o sangue é vermelho.

São contadas histórias miúdas, de uma delicadeza ímpar, com detalhes que apesar de toda a feiura e monstruosidade denotavam cuidado com o outro que lutava junto com cada uma delas, são pequenos respiros de vida no enfrentamento da morte que comovem e provocam.

Em tempos em que o papel da mulher está sendo rediscutido no que tange à garantia de direitos iguais entre homens e mulheres, a pergunta não é se existe lugar para o nome da mulher na guerra, a grande pergunta é: diante de tantas atrocidades rememoradas, existe espaço para o “Humano” na guerra?

Créditos da imagem: Holly Mindrup