Resenha: Holocausto Brasileiro – Daniela Arbex

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Editora: Geração
Autor: Daniela Arbex
ISBN: 9788581301570
Edição: 1
Número de páginas: 256
Acabamento: Brochura
Classificação EDS: 100 de 100 pontos
Compre: Amazon

Durante décadas, milhares de pacientes foram internados à força, sem diagnóstico de doença mental, num enorme hospício na cidade de Barbacena, em Minas Gerais. Ali foram torturados, violentados e mortos sem que ninguém se importasse com seu destino. Eram apenas epilépticos, alcoólatras, homossexuais, prostitutas, meninas grávidas pelos patrões, mulheres confinadas pelos maridos, moças que haviam perdido a virgindade antes do casamento.
Ninguém ouvia seus gritos. Jornalistas famosos, nos anos 60 e 70, fizeram reportagens denunciando os maus tratos. Nenhum deles – como faz agora Daniela Arbex – conseguiu contar a história completa. O que se praticou no Hospício de Barbacena foi um genocídio, com 60 mil mortes.
Um holocausto praticado pelo Estado, com a conivência de médicos, funcionários e da população.

Minhas impressões

Eu leio bastante livros históricos. Muitos eu nem escrevo resenhas aqui, pois são assuntos muito similares, além que demoro séculos para terminar.

Um dos assuntos mais recorrentes dos livros é o Nazismo ou a segunda guerra mundial. Me fascina não seria a palavra certa. Creio que me surpreende a capacidade humana para praticar o mal. Não entenda que eu ache que o ser o humano seja bonzinho e me assuste com a maldade, mas tento entender como algo de tal magnitude foi possível.

Eu sei que vários estudos sobre o assunto já foi feito. Exemplo disso é o experimento de Milgram (veja o vídeo aqui – https://www.youtube.com/watch?v=CeBStDeOS70), porém não acredito que foi somente o medo de uma autoridade ou a situação financeira que levou à tudo que ocorreu na segunda guerra. Não foi só a propaganda política, ou o nacionalismo deturpado com xenofobia. Enfim, tento entender o qual foi o conjunto de situações que levou uma nação a quase obliterar a outra.

O descaso diante da realidade nos transforma em prisioneiros dela. Ao ignorá-la, nos tornamos cúmplices dos crimes que se repetem diariamente diante de nossos olhos. Enquanto o silêncio acobertar a indiferença, a sociedade continuará avançando em direção ao passado de barbárie. É tempo de escrever uma nova história e mudar o final.

Muito recentemente tive uma discussão sobre esse assunto onde a pessoa afirmava que o holocausto, ou algo desse tipo jamais aconteceria. Principalmente com a sociedade informatizada que temos hoje.

Concordei em partes com o que ele disse. Na verdade só concordei com um ponto: A magnitude do holocausto realmente será difícil de replicar, mas tenho certeza de que outras partes do holocausto tem acontecido diariamente. Seja um grupo religioso atacando outras pessoas ou países por não pertencerem ao seu credo. Seja um presidente xenofóbico construindo um muro na fronteira ou então um ditador com um corte de cabelo ridículo que mantém seu país na miséria e ameaça outros países com armas nucleares.

Como da pra perceber falo bastante sobre esse assunto.

Buscando justamente livros que comprovassem minha teoria de “repetição” do holocausto cheguei em Holocausto Brasileiro. Já conhecia o livro das prateleiras das lojas, mas somente depois de presentear minha mãe com um exemplar que eu fui ler.

Se eu precisasse definir em uma única palavra o livro seria bem difícil, mas provavelmente eu escolheria repugnante.

O livro escrito pela jornalista Daniela Arbex, traz uma coletânea de reportagens de uma série que a mesma escreveu para o jornal que trabalhara. Essa série fala sobre o hospício mais famoso do Brasil: o Colônia, localizado em Barbacena, Minas Gerais.

O colônia tem sua data de fundação marcada como 1903. Importante que você vá prestando atenção nas datas. Mesmo tendo sido criado a mais de cem anos atras ele só se tornou conhecido na década de sessenta/setenta pelo tratamento desumano dos pacientes. Em 1961 o hospital que tinha somente duzentos leitos, abrigava mais de cinco mil pessoas!

O Colônia em seus primeiros anos tinha o foco na cura de tuberculosos pelo fato de ser localizado acima das linhas das montanhas. Era tido como um local ideal para isso. Anos após a inauguração passou a receber pacientes com problemas psiquiátricos. A partir da década de cinquenta o Colônia passou a receber as pessoas tidas como “indesejáveis”.

Daniela Arbex conta algumas histórias dessas pessoas “indesejáveis”. Alguns casos que me lembro sãos de pessoas epiléticas, homossexuais, meninas que engravidavam de seus patrões e eram enviadas para o Colônia afim de serem escondidas em nome da “família e bons costumes”. Havia um caso de uma menina que era muito desobediente e respondona que acabou sendo enviada para o hospital pelo pai!

Estima-se que setenta por cento dos internos que morreram não tinham nenhum tipo de problema. Bastava um papel assinado por um médico, delegado, etc, para que a pessoa fosse internada. Esses “doentes” chegavam de todos os Estados através de uma linha férrea que era conhecida “carinhosamente” de Trem de Doido.

Sessenta mil. Vou repetir de forma numeral agora 60.000 foi o número de pessoas que morreram dentro do Colônia. Voltando um pouco vocês viram que setenta por cento desses não tinha nenhum problema, ou seja, quarenta e dois mil internos morreram “de graça”. Claro que isso é um número estimado, pois muitos mais podem ter morrido e não se tem registro.

Segundo o Ministério da Saúde, 12% da população necessita de algum atendimento em saúde mental, sendo ele contínuo ou eventual, representando um contingente de vinte e dois milhões de pessoas. Com 1.620 Centros de Atenção Psicossocial instalados no país até 2010, o indicador de um CAPS para cada cem mil habitantes ainda não foi alcançado.

Se você não está chocado até agora, eu vou contar um pouco mais.

Por ser localizado acima das montanhas, o clima de Barbacena nas décadas de sessenta e setenta era extremamente frio no inverno. Os internos não tinham roupas adequadas e quando tinham eram trapos. Além de outros muitos que ficavam pelados. Um dos diretores recorda que em uma madrugada particularmente fria, dezessete pacientes morreram. Dezessete em uma única noite.

Nessas mesmas décadas crianças passaram a fazer parte do quadro de internos. Ficavam misturados com homens e mulheres.

Agora pare um instante e perceba as datas em que isso aconteceu.

Eu não estou falando de 1943 ou 194 que foi o auge da segunda guerra. Estou falando dos anos sessenta, setenta e oitenta. Considerando-se o tempo em que o mundo existe, ou mesmo o tempo que nosso país existe, isso seria horas atrás nos capítulos da nossa história.

Eu não costumo colocar fotos nas resenhas, mas colocarei abaixo algumas das imagens que chocaram a população na época (na verdade achei um vídeo da própria editora).

Conseguiu captar um pouco da repugnância da situação? Deu pra entender que poderia ser nossos avós ou pais, dependendo da sua idade, que estariam internados lá? Deu pra compreender que algo tão desumano estava acontecendo próximo a humanos “saudáveis” que se tornaram omissos? “Ah, mas havia a ditadura na época”, porém a ditadura veio e foi embora e o Colônia continuou o mesmo.

É por esse e outros motivos que eu acredito piamente que outros Trumps, Bolsonaros, Hitlers sejam possíveis.

Poderia citar inúmeras outras atrocidades como o fato dos internos tomarem “água” de esgoto, usarem capim como cama, as mulheres que assavam fezes no corpo para não serem estupradas pelos funcionários enquanto estavam grávidas.

– Eu vim aqui para falar sobre o João Bosco.
Geralda estremeceu. após quatro décadas e meia de separação, alguém batia à sua porta trazendo informações do filho. Seria mesmo verdade?

Assim como no Holocausto existiram algumas almas boas que mesmo trabalhando no Colônia procuravam de alguma forma ajudar, fosse denunciando os maus-tratos, fosse separando um pouco a mais de sopa rala.

– Eu não sabia o tamanho da tragédia. Hoje sei e me arrependo de não ter dado o grito mais cedo. Acho que eu podia ter evitado alguma morte. Quantas? Muitas talvez.

Mesmo com as reportagens e fotos mostrando os horrores do Colônia, ele demorou anos para ser fechado. Somente no fim dos anos 80 que ele foi desmantelado, porém somente em 2001, deixa eu repetir, somente em 2001, dezesseis anos atrás, foi sancionada uma lei referente à hospícios no Brasil.

Enfim, o livro é excelente, pois traz à luz um assunto tão triste e recente na nossa história. Alguns pontos me desagradaram na formulação do livro, um deles foi a disposição dos capítulos. Como disse o livro é uma coletânea de reportagens com alguns comentários da autora. As vezes fica até cansativo, pois ela repete algumas definições e abreviaturas, o que é comum em reportagens com um intervalo grande entre as publicações.
O segundo ponto foi a falta de informação sobre uma possível punição dos responsáveis, porém diante da nossa “justiça” não me surpreenderia o fato de ninguém ter sido punido.

Este próximo trecho foi um dos mais tocantes em todo o livro:

Em 2011, Sônia realizou sua maior ousadia. Para quem passou cinquenta anos presa nos porões da loucura, conhecer Porto Seguro, na Bahia, foi uma dádiva na vida dessa mulher. De uma única vez, ela experimentou o gosto da liberdade, a sensação de andar de avião, quase como se tivesse “ganhado asas”, e de ver o mar.

Estou acabando, prometo.

Como disse o livro é excelente e merecia um espaço em nossos registros históricos como uma forma de homenagem aos que morreram, uma forma de reparação para quem sobreviveu e uma forma de aviso para nosso futuro.

Conhece algum caso parecido ou quem sofreu com isso? Comente =]

Até a próxima.